Transcrição dos Livros de Poemas
Segunda-feira, 4 de Junho de 2007
Transcrição do livro de Poemas " HORAS CONTADAS "
HORAS CONTADAS

I

Eu não quero que o tempo corra assim,
Depressa como forte ventania …
Pois dia ainda, é noite, dentro de mim,
E a ideia do amanhã já me angustia.

Nada é eterno… Tudo tem um fim…
Vai chegar, cedo ou tarde, aquele dia
Em que o meu Não será mais do que um Sim,
Até mesmo, na hora da agonia!


Louca ilusão a minha, pois ninguém
Pode fugir à morte que ela vem
No mistério insondável do futuro,

Ninguém chegou aqui, para ficar …
Quem vem do nada, ao nada vai voltar …
… E tudo o que se aspire é prematuro.



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DESALENTO


Porque a vida não pára, eu, vacilante,
Quero parar, mas sinto, apavorado,
Que, mais a mim, se chega a cada instante,
O fim do meu caminho limitado!


Como vai longe! Ai, como vai distante
O tempo em que vivia descuidado,
E me falava a doce voz cantante
Desse presente que se fez passado!


E a ele volto e não encontro nada,
Que me fale da vida amargurada
Que ao recordá-la ainda me angustia.


Com que tristeza tudo, tudo lembro,
Neste dia cinzento de Novembro,
Nesta manhã viúva de alegria !


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SE O VENTO VIER …



Quando chegar a hora da partida,
Que sejam os teus dedos a fechar
Os meus olhos, cansados de chorar
Os amargos revezes desta vida …


Quero apenas, na minha despedida,
Um leve adeus, um simples acenar
Que diga que a saudade vai ficar,
Como oração de amor muito sentida!


Se, nesse triste dia, vier vento
Juntar, à tua dor, o seu lamento,
Como quem lembra o que não volta mais,


Não chores, porque a vida é só isto,
Abraça-te, querida, à Cruz de Cristo,
Sem queixumes, sem lágrimas, sem ais!...


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DESPEDIDA


Na despedida, vou dizer-te adeus,
Sem mágoa, sem pesar e sem tristeza…
É que trago comigo esta certeza
De que, no Além, me espera há muito Deus!


Quando partir não quero ver os teus
Olhos chorarem; só quero ouvir reza
Bem sentida, impregnada de pureza
Tão leve que depressa chegue aos Céus!


Parto feliz, vou encontrar no Além,
A alegria, a ventura, a paz, o Bem
Que nunca tive, nunca, em minha vida …


Não te sintas sozinha … Eu vou ficar,
No ar aqui envolve o nosso Lar …
…Não chores, pois, na hora da partida!


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QUANDO CANTO


Ai, se soubesses, meu amor, o quanto
Me custa confessar-te esta verdade:
- Minha alma sofre e chora, quando canto
O passado que vivo, com saudade.


Às vezes, quantas vezes, é com tanto
Carinho que emolduro a minha idade…
Que a vida se transforma em doce encanto …
Vaga de amor que, em mim, já tudo invade.


Não digam que, em meus versos, a beleza
Reside na amargura e na tristeza
Que sempre revelou o meu cantar!

É por isso que canto, sem saber
O que vai minha pena escrever,
Se, quando canto, sinto a alma chorar ! …


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REMORSO


Sinto remorsos, sinto, de não ter
Gritado, aos quatro ventos, quando quanto
De bom teria feito, como santo
Que fui predestinado, ao meu nascer!


Remorsos por não ter vivido a vida
Como Jesus viveu : - Semeando o Bem,
Amando todos, sem magoar ninguém;
Trazer a alma de Paz enriquecida.

E por não ter sabido perdoar
A quantos me feriram e me dão,
Ainda, a dura prova do seu Não
Ao amor que eu, em vão, tento esbanjar.

Não saber derramar a caridade,
Sem discriminação … Não dar amor
A quantos vão sofrendo a amarga dor,
No silêncio da sua soledade!



Remorsos tenho de sentir, enquanto
Não for aquilo que eu quisera ser,
Semeando o Bem e o Amor, em cada canto,
Como única razão do meu viver ! …


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MARIA, MÃE DO CÉU



A Teu lado, caminho, dia a dia ;
Nas Tuas mãos, depus o meu destino,
Desde os longínquos tempos de menino,
Quando aprendi a orar Avé Maria !


Nos momentos amargos de aflição,
Sempre me ouviste, mesmo pecador,
Quando, com muita fé, com muito amor
Pedia a Tua ajuda, o Teu perdão!


Eu não posso aceitar nem entender,
Quando mais acalento este fervor,
Que ainda exista quem possa viver
Sem ter o Teu amparo, o Teu amor!


Maria! Mãe do Céu! Mãe de Jesus !
A Seus pés, foste bem amargurada.
Se Ele arrastou uma pesada Cruz,
A Tua, Santa Mãe, foi mais pesada! …



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HORAS CONTADAS


II



Amanhã… Com que amarga ansiedade,
O esperamos, tão cheios de incerteza…
Virá emoldurado de tristeza,
De alegria, de encantos, de saudade?


Que mistério o envolve, na verdade!
Virá aureolado de beleza?
Ou traz consigo aquela chama acesa
Que não aquece uma avançada idade?

Amanhã … Mas que quer isto dizer,
Se a noite ainda longe vai descer …
Quem sabe, quem, se lá irá chegar?


Amanhã … Sempre um amanhã incerto ;
Por isso mesmo, logo que desperto,
Noutro amanhã me ponho a meditar!


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M Ã E


Minha mãe, minha mãe, quanta saudade
Me ronda, nesta hora de tristeza,
Na gelidez da minha soledade,
Tão cheia de amargura e de incerteza!


Há tantos anos já que tu partiste …
Hoje, é um velho o teu bebé de outrora.
Já nada é do que deixaste e viste
Pois sempre que te lembra, sofre e chora.


Hoje, que o tempo marca aquele dia
Que só lembrá-lo ainda me angustia
Me fere e me atormenta de cansaço,

Ai, minha mãe talvez em breve, esteja
Junto de ti, e queira Deus que seja
Para adormecer de novo no teu regaço ! …


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CERTEZA


Na caminhada incerta desta vida,
Meus dias vou passando, sem saber
A razão e o porquê do meu sofrer,
Num mar de angústia e dor indefinida.


É que, pensar na hora da partida
É perder-se a esperança de viver …
E, em vão, tento olvidar, tento esquecer
Esta certeza amarga, dolorida.


Nunca entrará em ti essa alegria
Com que Deus nos envolve em cada dia,
Sem doares o perdão e sem amares!

Mas afinal a vida não é nossa!
Saiba vivê-la quem vivê-la possa
Sem lágrimas, sem ódios, sem pesares!


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DIA DIFERENTE


Hoje, é dia de festa. Mas em mim,
Não sei porquê, há no meu coração
O alegre sim que agora é menos sim,
O triste Não que é cada vez mais Não! …


Senhor! Quem pode, quem, viver assim,
Numa constante e atroz desilusão,
Sabendo-se que a vida tem um fim
E em cinzas se desfaz qualquer paixão!


Apaga-se a esperança, nesta vida.
Na longa via mártir percorrida,
Nada animou a minha soledade …

Neste viver, todo feito de incerteza
É assim que a tristeza é mais tristeza,
É assim que a saudade é mais saudade! …


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ILUSÃO


Hoje sinto-me triste … A soledade
Inunda o meu viver, duma incerteza,
Duma dor que avoluma esta tristeza
Que é toda, toda feita de saudade.

Hoje, sinto-me triste, porque me invade
O coração um mundo de lembranças
Que abafam, dentro de mim, as esperanças
Que acalentei, na minha mocidade!


Acreditei na vida … Acreditei
No Bem, no Amor, em tanto que nem sei …
E afinal sinto-me hoje, amargurado!


Como seria tudo diferente
Do que o meu coração agora sente,
Se eu pudesse voltar ao meu passado! …


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SEM VENTURA, SEM PAZ, SEM AMOR …


Não tentes, nunca, nunca, desvendar
O mistério que envolve o meu tormento…
É que, eu próprio não sei que sentimento
Me invade, quando fico a meditar …


Trago, na alma, um constante murmurar
Que acusa o meu inquieto desalento,
Como tarde outonal, de céu cinzento,
Como noite viúva de luar!


Embora seja amargo o meu caminho,
Deixem-me seguir, assim sozinho,
Muito agarrado à minha própria dor …


É que, só ela me pode entender,
E entender a razão do meu viver,
Sem ventura, sem paz e sem amor …



**********************


PARA QUÊ ?


Saí de mim em busca de ventura,
Daquele bem que em vão idealizei
Minha esperança fez-se mais escura
Quando sem nada, nada, a mim voltei.


De tudo que me inquieta e me tortura
Do quanto eu cegamente acreditei,
Apenas se mantém impune e pura
Esta paixão que sempre te doei !


E pergunto a mim mesmo para quê
Se tenta crer no quanto se não vê,
Se dentro de nós não arde, não aquece,

A labareda ardente de um amor
Capaz de transformar a própria dor
Em alegria que jamais perece?!



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ENGANO


Não me olhes mais assim que eu quero ver
Outra alegria, em teu magoado olhar …
Não me olhes mais assim, que eu vou perder
O Bem que trago, em mim, para te dar! …


Toda essa angústia que te faz sofrer,
Toda essa dor que te anda a atormentar
São mistos de amargura e de prazer
Que, na vida, jamais te irão deixar!

De mágoa, pela tua solidão …
De prazer, porque te enche o coração
Uma forte esperança de ventura …


Tudo isso é transitório e enganador;
Embora brilhe o Sol, com muito ardor,
Vai-se depressa … e volta e a noite escura!



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SÚPLICA


Ó Anto dos meus sonhos,
Florbela dos meus encantos,
Giraldy da minha dor…
… Quantos mais poetas, quantos?!

Irmãos no sofrimento
E na poesia …
Vinde enxugar meus prantos,
Avivar minha alegria


Ó Anto dos meus sonhos.
Florbela dos meus encantos …
Por que razão me acompanham
Os ecos dos vossos prantos?


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ESTE VIVER ASSIM


Virá o dia em que o amanhã não chega …
Será hoje, a limitar um fim?
… E uma esperança forte, forte e cega,
Impede-me de ver o que há em mim!

E o que é que este sofrer atroz me lega?
Não é viver este viver assim …
Meu pensamento triste nunca nega
Esta verdade que é o nosso fim! …


Martirizar-me com o que há-de vir?
Todos temos a hora de partir …
Mas para quê sofrer-se duplamente,

Se a vida é muito mais do que um outrora …
… Foi o ontem, é o hoje, é já o agora …
É um momento triste, finalmente !


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RETORNO


Longe, lá longe no horizonte,
O Sol surgiu ardente, claro e quente,
Enquanto iam chamando, toda a gente
O mar calmo, a nascente a até à fonte.

Nos planaltos, e desde o vale ao monte,
Sopra uma aragem leve, leve e quente,
A acariciar os rostos, docemente,
Como a brisa, ao longo duma ponte.

Não há grilos cantando, nos caminhos,
E o alegre chilrear dos passarinhos
Calou-se nas ravinas dos valados …

A noite desde lenta, e hora a hora
Volta o silêncio que é mais triste agora
E me leva ao tormento do passado!



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PENUMBRA


Cheguei ao fim. Cheguei e, finalmente,
Já nada mais me resta, nesta vida,
Além duma esperança, já perdida,
Que só entende quem a vive e sente !

Ao longe, ecoa um sino, em tom plangente;
Corre, em meu rosto, a lágrima dorida
Que é fruto de tristeza bem sentida,
Que só cai quando a vida é sol-poente.

Enche-me o coração este querer
De triunfar, cantando, e de vencer
Esta mágoa que me anda a atormentar.

A dor que me angustia e me inquieta
Abriga-se em minha alma de poeta
E envolve de penumbra o caminhar !


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ANSEIO


Lembrando o que vivi, sinto-me triste …
E há dentro em mim, vontade de chorar…
E o brilho da alegria que tu viste,
Há muito se apagou no meu olhar!


E esta certeza amarga que persiste:
Quer queira ou não, terei de caminhar,
Em direcção à vala que me abriste,
Senhor, para meu corpo repousar !


Ai, quem pudesse, quem, ó meu Senhor,
Emoldurar a vida com amor,
E aureolá-la, com a luz do Bem …

E dar carinho e paz, e dar ternura,
A quem, no mundo é órfão da ventura,
A quem, na vida, nada, nada tem!


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ARREPENDIMENTO


Ai, se eu pudesse, se pudesse agora
Travar esta corrida para a morte,
Apontaria, à vida, um outro norte
Que eu quisera nunca dar outrora.

Por isso, este remorso que apavora
E me consome é cada vez mais forte …
E não há nada que me trave ou corte
Esta mágoa que, em mim, há muito mora!


Poria toda a luz em meu viver…
E nunca, nunca mais queria ver
Essa ilusória imagem da ventura…

Se ela surgisse agora, em meu caminho,
Não voltaria a ter o meu carinho,
Mas, sim, o fel de toda esta amargura !


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NATAL





NATAL

I



Todos os anos escuto o mesmo :
- Natal ! Natal ! Paz, Alegria, Amor,
Presépio, Lareira, Calor!
E ali vive a fome, dura, crua, nua.
E mais além se estende o frio,
Nos escuros casebres,
Nas portas dos templos,
Na rua … na rua !


Outra vez Natal …
Mas que Natal à vista?
O mesmo de sempre.
Quem m’o nega? Quem?
Que se lance um olhar
Para além,
Para além do mar …
E digam-me onde está o Bem …


No Iraque? Em Timor?
Já satura, já cansa
Sustentar uma esperança
Duma paz mentirosa,
Suportar esta dor,
Numa guerra que se adivinha
E que se aproxima e avança!

Basta de insultos!
Na árvore esplendorosa
De brilhos e de luzes,
Há reflexos de cruzes
Que arrastam os que sofrem!

Natal? Só agora? Agora?
Hipócritas! Hipócritas!
Todos os dias acontece Natal! …
Ele veio ao Mundo e ficou …
E anda por aí maltratado,
Injuriado, abandonado,
Na imagem viva dos que sofrem!

Olha o encarcerado,
O doente, o moribundo,
O inocente roxo de frio,
A inveja, o egoísmo e o mal
E então poderás clamar bem alto:
Agora afinal é que é natal!


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NATAL

II

Canta comigo
Que eu sozinho não consigo;
É quem canta
A sua amargura espanta.

É Natal! … Nasceu Jesus!
Por isso ergo a minha voz
A dizer que Ele, na Cruz
Sofreu e morreu por nós!

E agora,
Sei bem que tua alma chora,
E que não podes cantar.
É Natal … E neste dia,
Abre a tua alma à alegria …
Que ela venha em ti morar!


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NATAL

III


Volta Menino, volta …
Volta ao meu coração ,
Com a Paz, com a Alegria
Que em meu peito havia então !

É que eles esqueceram
Que vieste a este Mundo,
Sofrer torturas e dores,
Não pela riqueza dos nobres,
Mas pela miséria dos pobres
E pelos mais pecadores!

Volta Menino, volta,
Volta ao meu coração,
Com a chama de alegria,
Com a paz do Teu Perdão!



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NATAL

IV



Não me falem de Natal
Enquanto o riso der lugar à dor
E não for esmagado o mal
Pelo Bem e Amor …
Não … Não …
Não me falem de Natal !


Enquanto a chuva se infiltrar
Nos podres tectos de humildes
Casebres destelhados,
E o frio enregelar
Rostos enrugados,
Cansados, dos vencidos da vida …
Não … Não …
Não me falem de Natal !

Só quando tu, que te afirmas homem
E dizes ser meu irmão,
Me estenderes a mão,
Num gesto amigo e fraternal…
Então,
Para mim,
Entendo que só assim
Deve e pode acontecer Natal!


É preciso que o Mundo entenda
Que, em cada dia que passa,
Nos corações dos homens,
Tem de haver o calor da Graça,
Tem de haver natal …
E renascer
A Paz, o Bem e o Amor…
… Só quando isto acontecer
Pode acontecer Natal!



NOITE DO CORAÇÂO



NOITE DO CORAÇÃO


I


Hoje,
Não tive carta …
Amarga desilusão…
E o carteiro passou
Na rua deserta,
E deserto ficou
O meu coração ! …


Hoje,
Não tive carta!
Não me escreveste nada!
Porque te ficas
Muda, calada,
Adormecida,
Se uma carta
Encerra o encanto
Da luz da lua,
Na noite cerrada,
Na noite fechada
Da minha vida?

Hoje, não tive carta,
Carta que fosse tua …
Adensou-se a escuridão
Nesta noite sem lua
Que envolve meu coração!


Hoje,
Não tive carta tua …
Porque razão? Porque razão?


……………………..

Que o diga
O teu coração ! …



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NOITE DO CORAÇÃO
Depois ….
II



Um dia, passarás à nossa porta
E dirás, consternada : - Aqui, morava
Aquele que eu, em vida, tanto amava,
Recordação que ainda me conforta …


Quando partir, não fiques lamentando
A falta e o vazio que deixei,
Na tua vida, quando tanto amei
Os bons momentos que foram passando.

Éramos quatro, quatro muito unidos,
E os instantes, alegres ou doridos,
Foram por todos, todos, comungados.

Agora, meu amor, veio o … Depois
Dizer-nos que, só nós, só nós os dois,
A viver sós, ficámos condenados ! …



************************



NOITE DO CORAÇÃO


III



Que força estranha
Em mim se esconde?
Quero deter o passo,
Quero parar,
Mas continuo a caminhar
Para ti, contigo, para onde?

Vem,
Que a minha alma tudo tem
Para te dar !

Abre-me os braços,
E deixa-me adormecer …
Deixa-me sonhar …


Dá-me os teus lábios.
Com elas, talvez melhor
Saiba cantar!


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NOITE DO CORAÇÃO

IV


Fugiu de mim a alegria …
Ficou comigo a incerteza…
Passam anos, mais um dia,
Só não passa esta tristeza


Que veio morar desde então,
Dentro de mim, para ficar
A ferir meu coração
Que não pára de chorar !

*******************


NOITE DO CORAÇÃO

V


Nem um gesto! Nem mais uma palavra!
Deixa-me entregue à minha dor!
Dá-me o teu silêncio,
O tormento da tua mudez,
A voz do meu amor!

Nem um gesto mais!
Nem mais uma palavra!
Não!
Que é o fogo a revolta que se lavra
No meu coração.

Deixa-me seguir este caminho …
Não me digas nada!
Que é mesmo assim sozinho,
Entregue á minha dor,
Que eu vivo bem mais perto
Da tua alma, ó meu amor.

Não!
Não me digas nada!
Deixa-me entregue à minha solidão,
Para que nesta noite calada
Eu possa melhor escutar
O bater do coração!


*******************


NOITE DO CORAÇÃO

VI

Não me dês amizade,
Que eu quero, amor,
O teu amor…
Embora nele se esboce
Apenas saudade,
Apenas dor!

O Amor
Vive no silêncio das noites de luar,
No cantar das fontes,
Na aridez dos montes,
Na imensidão do mar!

O Amor vive no choro do vento,
No soluço amargo da chuva,
Em dia cinzento.

Não me dês amizade
Que eu só quero o teu amor!


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NOITE DO CORAÇÃO

VII


Quero que seja o meu melhor poema
O que escrever à hora do sol-pôr,
À beira-mar, contigo, meu amor,
Tentando diluir o meu dilema!

Este querer amar, amar a vida
Quando ela me tortura e me inquieta
Este aceitar a dor de ser poeta
Nesta angústia duma ânsia indefinida

Quem vem, quem vem dizer-me que afinal
Não vale a pena assim viver sofrendo,
Pois que todos os dias, se vai morrendo,
Mesmo fugindo ao momento fatal !

Que seja este o meu melhor poema,
Tão cheio de palavras torturadas
E escrito então com lágrimas salgadas
Tentando aniquilar o meu dilema!


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NO MEIO DO MAR




NO MEIO DO MAR

I


Fugiu a terra do meu olhar
E longe, sempre longe,
Só há bruma, céu e mar …


A brisa passa cantando,
O vento corre a chorar …


Escondem-se além estrelas
Nesta noite sem luar …



……………………………………….

…. E o mar cola-se ao céu,
Nesses horizontes distantes,
Longínquos, cinzentos e tristes …


***************


NO MEIO DO MAR

II


Vamos juntos
Caminhar …
Vem …
Vem aprender
A cantar,
Esta misteriosa canção,
Esta linguagem singular,
E viver
Na solidão
Duma Ilha encantada,
No meio do mar …
No meio do mar …


***********************


NO MEIO DO MAR


IIII

Vem comigo, vem …
Vem conhecer o mundo
Onde vivemos …
Vem …
Como ele é diferente de outras eras …
Tão pobre de venturas,
Tão rico de quimeras.


Vem comigo,
Nesta triste solidão,
Que emudece que se cala,
Dentro do meu coração!
Silêncio que encanta e apavora,
Este silêncio que acalenta a dor,
Na voz de minha alma que chora!

Vem estender
Esta imensa tristeza
Que nos deixa
A voz do tormento
Que nada consegue dizer
Do quanto se sofre e sente.

Vem comigo vem …
Para que possas ver
O amargo que tem
O frio sem vento,
O vento sem voz.


***********************



NO MEIO DO MAR

IV



Não quero mais silêncio!
Quero ouvir os gemidos do vento,
A balada da chuva que, lá fora,
Baila e canta, canta e chora …


Quero ouvir o rugido das vagas,
O marulhar das águas …
Não quero mais silêncio,
Não o quero mais,

Além dos ecos doridos,
Dos meus próprios ais.
Não quero mais silêncio,
Não o quero mais ! …


***************


NO MEIO DO MAR

V


Deixem que o vento me leve para longe …
Para que o Sol, dia a dia,
Brilhe mais e mais aqueça
O meu caminho!


Não me perguntem quem sou,
Nem donde vim,
Nem para onde vou …
Que eu nada sei;

Vivo por viver,
Canto por cantar
E, ás vezes, quantas vezes,
Com vontade de chorar! …

Quem entende este clamor!
Quem? Quem?
Só o vento sibilando responde:
- Ninguém … Ninguém …



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NO MEIO DO MAR

VI


O vazio e a solidão
Que emolduram minha vida
Deixaram meu coração
Numa angústia indefinida.


Nunca soube para onde!
Apenas sei que cinzento,
Me levou o mar que esconde
Minha mágoa, meu tormento.

Pergunto e ninguém responde.
Vai-se as noite e volta o dia.
Quem sabe? Quem sabe aonde
Se foi a minha alegria ?!


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NO MEIO DO MAR


VII


Nasci nas ondas que beijam
As encostas dum vulcão…
E quando à noite adormeço
A minha terra é o berço
Que embala o meu coração!

Por tecto só tenho nuvens
Meu horizonte é o mar …
Se tivesse asas, um dia,
Certamente que partia
Para nunca mais voltar.


…………………………….

Querer partir e não ter
Um chão para caminhar!


***********************


NO MEIO DO MAR

VIII


Inverno. Domingo. Tarde.
Na minha rua
Triste, vazia, nua,
Ninguém passa…
E o próprio Sol já não arde,
Não aquece, não abrasa
As ombreiras da minha casa.

Domingo. Tarde.
Silêncio …
Nem o alarde
Do rapazio
Anima
Este domingo frio,
Esta fria tarde!


Tarde cinzenta,
Dum cinzento escuro …
Da cor
Desta cor…
Tarde cinzenta,
Dum cinzento escuro…
Senhor!
… E que procuro?
Nada já me acalenta …
Tudo, em mim, é vão e impuro ! …

Tarde cinzenta!
O céu, o monte, o mar …
Há em tudo um ar de tristeza…
Há tristeza no próprio ar!



*******************


VAGAS …



MOMENTOS DE ANGÚSTIA


Para ti,
Que bem Te conheço,
Muito embora diga
Que nunca Te vi …

Para ti,
Que me ouves e não respondes,
E pões mais silêncio,
Na minha solidão,
E mais espinhos
No meu coração!


Para Ti, vai esta mensagem agora,
Esta mensagem sem nome,
Triste, triste,
Quase sem esperança,
A dizer-Te
Que, por esse mundo fora,
Existe, existe,
Tanta criança,
Chorando, sofrendo,
Morrendo de fome!

Corpos esqueléticos
Enrodilhados no chão …
Viva imagem
Da ausência do Amor
De falta de Perdão.

Rostos esquálidos,
Pálidos,
Que gritam revolta
E me oprimem o coração!
E loucos olhares
Que derramam tristezas,
Que derramam pesares
De gentes
Que no rodar dos anos,
Passam frias, indiferentes,
Desumanos!



E por isso, Senhor,
Que este angustioso clamor
Se torna mais vivo,
Mais potente,
Mais forte,
À medida
Que avanço na vida,
A caminho da morte .



********************


RECORDANDO


Foi ontem? Foi há muito? – Mal me lembro –
- Que te encontrei, na rua onde passavas,
E, com sorriso triste, me saudavas
Nessas manhãs distantes de Dezembro.

Hoje, não sei porquê, tudo me fala –
- No silêncio – de música e poesia.
Talvez por isso tudo me angustia
Na saudade da voz que não se cala.

E longe, muito longe, muito ao fundo,
Soltam-se notas tristes, dum passado
Que caminharam sempre, lado a lado,
Do teu velho violino gemebundo!

A tua casa não ficou vazia …
Senta-se agora, em teu lugar, à mesa,
A imagem da saudade e da tristeza,
A contrastar com tudo quanto havia !


**************************


ANSEIO



Odeio, odeio,
Este tic-tac horrível, cadenciado,
Enervante, que mata
A ventura do presente …
Q que prolonga
A longa noite do doente …
Que limita o tempo da esperança,
E avoluma a hora da angústia,
O momento do desespero …

Este tic-tac horrível,
Cadenciado e lento,
De quem anseia o momento
Da libertação …

Odeio a vertigem
Do tempo que passa,
Do tempo que corre,
E onde tudo afunda
E tudo morre …


Como se tornaria
Tão bela a vida
Se noite e dia
Apenas se pudesse
Conjugar
O verbo amar, o verbo amar!


********************


AONDE ?


Aonde foi meu talento,
Um talento que passou
Nos braços do sofrimento,
Que partiu e não voltou?

Meu talento, feito vento,
Consigo tudo levou…
Aonde foi meu talento
Que tão pobre me deixou?!

Correu atrás da ventura
E sem ventura ficou …
E perdeu-se na procura
De um bem que não encontrou !


Aonde foi meu talento
Que partiu e não voltou?
Aonde foi meu talento
Que tão pobre me deixou?!


******************


DOMINGO TRISTE


Domingo triste porque, neste dia,
Os sinos não ecoaram, como outrora,
Nas encostas da colina, e a agonia
De um pôr-de-sol é bem mais triste agora.

Domingo triste, com ruas desertas,
A vida, em si, mais tristeza tem …
Portas fechadas, janelas abertas ,
Tudo deserto, não se vê ninguém.

De namorados nem um par se vê,
Nestes jardins, e até, não sei porquê,
A própria brisa se calou também …


Domingo triste… Nem o mar murmura,
A tarde desce e a noite chega escura,
Sem os encantos que o luar contém!


**********************


SE VOLTASSES …


Se cá voltasses, Senhor …
Pregando por estes caminhos,
Semeando o Bem e o Amor,
Terias, por certo, Senhor,
Nova coroa de espinhos!

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TRISTEZA


Ficou comigo a alegria,
Ficou comigo a incerteza…
Passam anos, mais um dia,
Só não passa esta tristeza,

Que veio morar desde então,
Dentro de mim, para ficar,
A ferir o meu coração
Que não para de chorar !


*********************


SAUDADE


Eu não sei se tu sabias,
Maria, que te amo tanto! …
Mesmo, pequena, tu crias,
Em mim, este grande encanto.

E, longe de ti, querida,
Dou, às outras, o carinho
Que seria em tua vida,
Um bem florido caminho!

Mas, tua ausência, Maria,
Faz-me a vida mais vazia
De esperanças e ventura …

É maior o desalento…
É o dia mais cinzento…
E é a noite mais escura ! …


************************


CLAMOR



Que vem dizer-me o vento que assobia,
Nessa densa ramagem do arvoredo?
Quero saber … Não quero … Tenho medo
Que não se agrave o mal que me angustia!

Que vem dizer-me o vento que anuncia
A tempestade? … E, sendo noite, é cedo…
Não consigo ficar inerte e quedo,
Para ver o romper de mais um dia!

Ó irmãos na tristeza e desalento
Ó vencidos da vida, no tormento,
Vinde escutar meu tétrico clamor …


Só vós podeis. Poetas, entender
Como é tão doloroso, assim viver
Imenso neste mar de acerba dor! …


PRECE


Não sejam nunca mais como eu,
Que ás vezes perco o norte
E caminho em vão,
Sem saber para onde vou!
Sejam viris e fortes
Ergam sempre ao mal
A barreira do vosso Não!


E que no coração,
De jovens, meus filhos,
Deixem criar raízes de amor …
E façam dele um sacrário
De Paz, de Bem e de Perdão!

Que o sacrifício e a dor
Sejam vias sacrossantas
Que vos conduzam à salvação!

Nada tenho, nada possuo
De mais puro, de melhor e mais nobre,
Para vos legar,
Que não seja o ardente desejo
De que esbanjem
Este sentimento puro e nobre
Levando carinho e amparo e cada pobre
Ensinando ao mundo o verbo AMAR!


**********************



AMARGO CAMINHAR


Não são lamentos, nem sequer gemidos
Os sons estranhos que eu escuto agora …
São talvez uivos, são talvez latidos
De cães raivosos que andam, lá por fora …

Vêm quebrar-se o silêncio desta hora,
Tão cheia de inquietudes, os latidos
De cães abandonados e perdidos
Que, na rua, vegetam como outrora!

Assim, torna-se a noite mais escura,
E mais intensa a minha desventura,
Num doloroso e amargo caminhar…


Porque razão, meu Deus, venho dizer
Tudo isto que ninguém pode entender…
… Que é dor que, em mim, há tanto veio morar?


************************


DOR


Quero partir …
Não levantem barreiras ao meu caminhar.
Deus deu-me asas
Para fugir
Ao sofrimento,
Para partir, partir,
Para voar …


Adocem o sofrer em que me fino.
Deixem-me seguir,
Pois que é diferente,
De outra gente,
O meu destino.
O meu sentir.

Qualquer que seja,
A intenção,
Rompam-se mantos de inveja
E escutem somente
O bater do coração!

Deixem-me seguir,
Deixem-me continuar
Na minha jornada,
Mesmo abandonado, fatigado,
Sozinho…
Deixem-me andar! …

Basta que o mar
Impeça o meu caminhar!
Deixem-me dizer o que sinto …
Deixem-me, chorando, cantar!


********************


TEMPO



Perdi meus sonhos, longe de mim mesmo
Tão longe que não mais voltei a ver
Os mil encantos de um feliz viver
Que, no rolar dos anos, tive a esmo.

Passaram como nuvens distraídas,
No véu da minha vida, esses momentos,
Ditosos e viúvos de tormentos,
Essas venturas afinal doridas.

Ai, como o tempo engana! É que o agora
É segundo que passa de corrida
É um breve minuto nesta vida,
E, há pouco, foi um hoje que é já outrora!

Nada o detém, na sua correria…
Não pára, não repousa, não descansa
Estende a sua mentirosa esperança
De um instante feliz e de outros dias …

Ai. O tempo! Quem nele quer pensar?
Quem? Se os que ele voa, corre,
Que tudo quanto existe, tudo morre
Se a gente vive as horas a contar.

Porque afinal a vida é breve estar,
E ninguém sabe quando chega a hora
Duma partida que já não demora,
De um seguir para nunca mais voltar ! …


***********************


HORAS CONTADAS


III


Há quantos anos, há quantos,
Me seduzes, me namoras
Ó gélida noiva-parca?...
Mas, quando vens?
De onde vens e “ onde moras ?

Venham dizer-mo, venham,
Que eu já conto os dias…
… E até já conto as horas …


Que a tua vinda traga
A imagem da Primavera…
Jamais negra, mas de mil cores,
Que eu quero adormecer
Num mar imenso de flores.


Um dia, não longe,
Tu virás “ noiva-morte,”
Para me abraçares…
…E para sempre me levares …

Ai quem mo dera saber,
Mesmo com sofrimento,
Quando chega esse momento?


… Mas diz-me quando vens,
De onde vens
E onde moras !”


….Que eu já conto os dias
E até mesmo as horas !


******************


HORAS CONTADAS


IV

Por saber que meus dias são contados
É que entristeço assim, pois amo a vida…
E não quisera tê-la, assim vivida,
Num mar de mancha e nódoas de pecados!

Meus passos fracos, lentos, já pesados,
Falam por mim e falam duma lida,
Sem louros, sem triunfos e perdida,
Em dias já longínquos, já passados!

Não me censurem, não, que a culpa tem
Quem me recusa a paz, o amor, o bem,
Quem me envolve na bruma da incerteza….

Por isso mesmo, a vida que eu queria,
Tão cheia de prazer e de alegria,
Tornou-se-me repleta de tristeza! …




José Maria Lopes de Araújo
“ Horas Contadas “ 1992


publicado por remospartidos às 23:14
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Transcrição do Livro de Poemas " OUTONO DA VIDA"
OUTONO DA VIDA


No doloroso rescaldo das labaredas
Que queimaram meus sonhos, minhas esperanças,
Vem a misteriosa voz do longe
Gritar mensagens íntimas, poemas singulares,
Em cantares do meu sentir...
Presidiário do Mar,
Meu desumano carcereiro,
Sentindo-me cada vez mais só,
Abafado no silêncio esmagador
Desta insular solidão,
Da minha amarga dor,
Saí mim próprio, em louca evasão ...


Queria gritar, bem alto,
De modo que todo o mundo ouvisse,
O verbo amar... o verbo mar,
Em noites de luar,
Ou manhãs de frio vendaval.


Que loucura a minha ...
Quero receber as gotas de mágoa
Das horas distantes do meu viver ...


Estou no Outono da vida...
Quando as folhas ressequidas rodopiam
E a brisa chora como violino gemebundo ! ...


Há palavras que não entendo
Na minha solidão:
O ontem, o hoje, o amanhã
E aquilo que vive cá dentro,
Cá dentro, no coração ...
O silêncio das coisas,
O sal das lágrimas,
Os sorrisos tristes,
As esperanças diluídas,
As chuvas, que são tormentos,
Batendo nas janelas,
Caindo dos beirais,
Em dolorosos momentos ! ...
Canto louco ... Canto louco ...
Pensamento ... Pensamento
Aonde vais? ... Aonde vais?



***************




AMARGA VERDADE



Não gostas, não, de ouvir falar da morte
Que é afinal a meta do porvir,
Na vida que tu vives, sem sentir
A triste realidade do teu norte !


Por resistente mesmo, por mais forte
Que seja aquele que tentar fugir
Á hora amargurada do partir,
Jamais pode fazê-lo ... É a sua sorte !


Tudo é incerto neste mundo, tudo...
Por isso, eu não me engano, não me iludo,
Ao aceitar a ideia do sofrer ! ...


É que, embora com mágoa, com tristeza,
Na minha vida, a única certeza
É esta, muito dura, a de morrer! ...


********



A CAMINHO DO ALÉM



Para abrigar meu corpo pecador,
Não quero mausoléu, nem um jazigo.
Só quero campa rasa e, com fervor,
As santas orações dum bom amigo ! ...


Vives agora junto do Senhor ...
Passou-se tudo breve e eu não consigo
Deter, em mim, o amargo desta dor
Que, para sempre, há-de viver comigo !


Ódios, traições, mentiras, malvadez ..
Tudo isso pereceu de uma só vez ...
...E ficou-se o remorso a passear ! ...


E a vida continua, pobre e triste,
Talvez ainda pior da que tu viste ...
... E para sempre assim há-de ficar ! ...




*************




ABRE-ME A PORTA



Abre-me a porta, quero entrar e ver,
De novo, o canto onde eu nasci, há tanto;
No teu regaço Mãe, adormecer
Num sono repousante, puro e santo !


Abre-me a porta; quero percorrer
O lar onde brinquei, e , canto a canto,
Buscar o bem melhor do meu viver
Que se ficou na infância, toda encanto !


Continuarei assim pela vida fora,
A reviver, saudoso, a toda a hora,
O tempo duma vida descuidada ...


Hoje, tudo é saudade e até tristeza...
Tudo se envolve em trágica incerteza...
É tudo vão e pó! É tudo nada ! ...



*****************




DOBRAM OS SINOS



Quando os sinos dobram,
Tocando a finados,
Lembram tristezas
De tempos passados!


Quer queiras ou não,
Tens de acreditar:
O teu coração
Terá de parar ! ...


Parar para sempre ...
Deixar de bater ...
Dizer que, afinal,
Parar é morrer !


Por isso, só conto
A hora que passa,
Se a vida vivida
Por hora de graça ..


E tens de pensar
Na verdade crua ;
A vida que vives
Jamais será tua !


O resto é só tempo...
E tempo que vai
Perder-se no tempo,
No sopro dum ai ...


Um ai que não conta...
Um ai, sem momento,
Que soltando aponta
A dor e o tormento !

E a prova que prova
Tão triste verdade
É a hora da cova ..
Hora da saudade ! ...




.................



Quando os sinos tocam,
Dobrando a finados...
Lembram as tristezas,
De tempos passados !



******************



CLAMOR


Ser poeta não é ser um sonhador
Que acalenta banais e vãs quimeras...
Ser Poeta é fazer do ódio Amor,
E reviver o belo de outras eras! ...



Como é bom ser Poeta, mesmo quando
A lágrima embacie o nosso olhar,
Quando se sinta o coração chorando
A mágoa deste duro caminhar !


Deixem-me ser assim, tal como sou ...
Deixem-me deambular por onde vou,
Ainda que haja abrolhos no caminho ! ...


Sou eu que sofro a dor da solidão ...
E sinto que o bater do coração
Me grita sede e fome de carinho !



**************



CAMINHO DA VIDA



Vou caminhando pelo vida fora
Ao sabor da amargura e da tristeza,
Dentro de mim só dúvida e incerteza,
Num coração que, no silêncio, chora !


Por que razão, meu Deus, eu sinto agora
Que a minha alma se ilumina de pureza,
E de encanto e de mágica beleza,
Emoldurando a dor que nele mora?


O sofrimento purifica, sim,
E tudo que de mau houver, em mim,
Vai pela dor tornar-se santidade !


A vida ? Eu não creio nela, não,
Naquela que sustenta o coração,
Mas, sim, na vida que é a Eternidade !




*****************



CONTRADIÇÂO



Pedes-me que não cante mais a morte,
Nem queres, não, que eu grite a minha dor...
Vou caminhar, silente, sem ter norte,
Sozinho, sem amparo, nem amor !


Mas, se encontrar um Bem que me conforte,
- Que importa lá que eu vá para onde for? ...
Que esta inquietude amarga é bem mais forte,
Quando de Ti me afasto, meu Senhor !


Eu não posso entender a vida assim,
Acalentando, há muito, dentro de mim,
O mistério insondável deste não,


Sofrendo, amargamente, sem querer,
O mal contraditório dum prazer
Que é chama que me queima o coração !



****************



HORA QUE PASSA



Ai, quanto custa viver,
Contando horas, uma a uma,
Não querendo perecer
Numa esperança que se esfuma !


Por muito que a gente faça,
A vida é sempre um tormento;
Não passa da hora que passa,
Não passa deste momento !


Quando se julga que a hora
Está longe, já chegou ...
É que o presente de agora
É passado que voou


E de um para outro instante ...
Na vida, tudo mudou ..
O presente vai distante
E o futuro já chegou !


Não vale a pena pensar
Muito, na vida, não,
Que ela, um dia, vai parar,
Quando pare o coração !



*******************




LIVRO DIFERENTE


Quero escrever um livro diferente ...
Um livro igual àquele que senti,
Mas que, não sei porquê, nunca escrevi,
Por ser livro, talvez, de toda a gente ! ...


Todo cheio de mágoas e pesares ...
Todo escrito, com mil contradições,
Com a tinta daqueles corações
Que, na amargura, se formaram pares!


Um livro que jamais se tenha lido,
Que possa traduzir o que hão sofrido
Os que caladamente suportaram.


Tudo quanto, na vida, mais nos custa :
- Ver duro golpe numa vida justa,
Ver olhos tristes que seu mal choraram !




******************




NADA SEI ...


- Como queres que a alegria
Viva, sempre, em mim?
Quando me dói e angustia
Não saber qual o meu fim!


Nem só eu, mas toda a gente ...
Ninguém pode adivinhar,
Nem sequer ao menos tente
Onde e como há-de acabar !


É o insondável mistério
Que surgiu no meu nascer ...
E no mundo me acompanha,
Sempre e sempre, em meu viver !


- O amanhã será ventura,
No cantinho do meu lar?
Ou vai chegar a amargura
Para comigo morar ? ! ...


E nada sei, nada sei ! ...
Ai, quem pudesse saber
Isto tudo, que não sei,
Anos antes de morrer ! ...



****************




CONTRASTE



Noite de Inverno, chuva, noite fria ...
Coberto de jornais, sob uma arcada,
O poeta sonhava que dormia
Em fofa cama e colcha rendilhada!


Manifestando bárbara alegria,
Ao longe, ecoava forte gargalhada ...
... A voz da malvadez que escarnecia
De quem vivia a vida sem morada !


Além cintilam luzes, no salão,
Onde há conforto e luxo, e os pares vão
Rodopiando uma valsa de Viena !


É ruído da orgia que desperta
O poeta, para a vida sempre incerta,
Duma ilusão, tão doce e tão amena ! ...



*****************




DESÂNIMO



- Por que será, meu Deus, que, neste dia,
Há dentro em mim angústia, dor, saudade?
Já não me vem dizer o que dizia
A alegre voa da minha mocidade!


- Será porque, feliz, então vivia
Indiferente á cáustica verdade,
Sem perceber que a vida é fugidia,
Tornando mais pesada a minha idade?


Não sei, não sei! Nem tento até saber
A razão desta chama de um sofrer
Que me queima e abrevia a minha vida ...


Senhor ! Senhor ! Não me abandones, não !
Suaviza a minha dor, e ao coração
Traz-me a Fé que julgo já perdida !



**************



ILUSÃO



A vida apaga-se, num simples ai ...
Nem tempo dá sequer para pensar ...
Pois voa como a brisa que se vai,
Que parte, para nunca mais voltar !


Ódio, injustiça, inveja, para quê?
Pois não vive quem não sabe perdoar...
Mergulha em ti, medita, pára e vê
Que a vida é um inglório e vão lutar !


Que importa, meu amor, que essa mulher
Altiva e presunçosa se envaideça,
Ao julgar-se tão bela como quer,
Ou mesmo como quanto lhe pareça !


Imponente, soberba, ela passou,
Ainda á pouco, junto a ti, querida,
Sem se lembrar sequer que caminhava,
De passo lento, para o fim da vida.


Por que razão, meu Deus, sustenta a gente
Essa nula ambição de ser-se alguém ? !
Ilusória grandeza que se sente,
Pensando ter-se o quanto se não tem !



***************




INSÓNIA



Anda o vento rezando
As orações de Outono,
Enquanto a minha alma, chorando,
Vai contando
Horas tristes de abandono !


E esta chuva miudinha
Que brinca , à solta, no ar,
E tem o brilho das estrelas
Que há nas noites de luar,


Acompanha esta canção
Que vai gemendo a folhagem,
Arrastada, pelo chão,
Ao sopro lento da aragem ! ...


E sinto saudades tuas ...
Quero dormir ...
Não tenho sono...
E vagueio pelas ruas,
Numa ânsia desmedida
De quebrar, partir,
Este abandono
Que tortura a minha vida !


E da minha alma dorida
Vai o vento arrancando
As folhas desta ilusão...
Vai o vento
Do tormento
Arrancando-as,
Arrastando-as,
Dentro do meu coração !


Quem para sempre pudesse,
Minha amada, adormecer ! ...
Sofro ! Não tenho sono! ...
Quem pudesse adormecer
Como estas folhas de Outono ! ...



****************




SÚPLICA



Não sei porquê; há hoje, dentro em mim,
Contradições que me enchem de tristeza:
- No brilho de uma lágrima, há beleza,
E num sorriso alegre, há a dor sem fim !


Nunca se sabe, como, ou onde ou quando
A luz do Sol se apaga para nós,
Nem mesmo quando se emudece a voz
De quem, na vida passa a dor cantando.


Nem tempo, nem distância, nem idade ...
Tudo isso é vão e enganador pensar ...
Morrer é, pois, partir, é caminhar,
De olhos fechados, rumo à Eternidade !


Os algozes ficaram ... TU partiste,
Esbanjando o Perdão, ó meu Jesus ...
E o mundo continua, como viste,
À TUA espera, com pesada Cruz! ...


Não voltes mais, não voltes mais, Senhor !
Escuta as nossas gratas orações...
Inunda-nos de Graças, Paz e Amor...
E aviva a Fé nos nossos corações ! ...




****************



RELEMBRANDO


Viste como este Mundo,
Por toda a parte,
É cheio de miséria e podridão,
De mistura com beleza e arte? ...


Viste o drogado,
Jovem ainda, estendido
No chão,
Roto, perdido,
Esfarrapado? ...


E aquela criança,
Pagando o crime que não cometeu;
Sem alegria, sem esperança,
Sem amor e sem escola;
De cabelos desgrenhados,
Descalça, rosto sujo,
Recolhendo a fria esmola
De quem passa
Indiferente à sua desdita,
Alheio à sua desgraça ? !


Viste como os homens passam
E as coisas ficam,
Ainda que carcomidas pelo rolar
Vertiginoso dos anos ? ...


... Foi ali ... Foi ali
Que Nero fez brotar
Da nascente da maldição,
Um rio de sangue ! ...


Relembrar tudo isto,
Com sentida emoção,
Tudo quanto foi visto
Com os olhos da alma
E do coração ...


É reviver
Um sonho feito realidade ...
É adormecer
Com indizível prazer,
Nos braços carinhosos
Da nossa maior saudade ! ...



**************



BALADA DE OUTONO


Chuva de Outono é tormento ...
Toalha de prata caindo
Na água cinzenta do mar ...
- Aonde vais meu pensamento,
Aonde vais, sempre fugindo,
Sem destino e sem parar ? ...


- Que buscas no horizonte,
Distante da minha vida?
Nada sabe que te conte
Da minha esperança perdida.


- Meu pensamento, aonde vais, aonde ?
Aonde vais, correndo, sem parara,
Buscando um sentimento que se esconde
No imenso abismo dum cinzento mar?


Chuva de Outono é tormento
Que leve cai do céu
E avoluma o isolamento
Deste meu presídio ilhéu !.




**************




META DA VIDA




Quis voltar à minha infância,
Quis voltar mas não voltei ...
De que se foi na distância
Dos tempos, bem pouco sei !


Ainda o que melhor lembro
E recordo, com saudade,
É o Natal, é Dezembro,
Nessa ingénua e pura idade,


Quando o Menino descia,
Na chaminé, à noitinha,
E em silêncio me trazia
O pedido, na “cartinha” !


Mas que prazer, que alegria,
Que descrever, não consigo ! ...
Que ventura então sentia,
Por sabê-lo meu amigo ! ...


Foi encontro que jamais
Voltarei, na vida, a ter!
- Pensamento, aonde vais?
- Que queres tu reviver? ...


Não vale a pena tentar
O deter desta corrida
Que nos leva, sem parar,
Á triste meta da vida ! ...




****************




ESPERANÇA



Se eu conseguisse viver este dia,
O dia que hoje passa,
Como se fosse o último da minha vida...
Esmagando ressentimentos,
Aleijando-me de toda a podridão
Que me aniquila a Graça,
Que me enegrece a alma
E enluta o coração...


Ai, se eu pudesse suster
Os passos incertos,
No caminho errado,
Do meu viver !
E ao passado não voltar,
E saber esquecer,
Esquecer e perdoar ! ...


Se conseguisse reter
A lágrima que teima,
Dolorida,
Soltar-se dos olhos vidrados,
E que teima
Os rostos enrugados
Dos vencidos da vida ...


Se eu pudesse evadir-me
Deste negro cárcere,
Desta dura e fria prisão
Onde, há muito, vivo
Abandonado,
Cativo,
Nos braços da solidão...


Se eu conseguisse viver
Só dentro de ti,
E tu, bem dentro de mim,
Mas sem ninguém entender
O nosso viver assim ...


Isolado, neste mundo,
Onde a amargura se esconde,
Alimentando uma esperança
Que virá, não sei bem donde ...
- Do horizonte ? Do céu? Do mar?
... Na chama do amor vivendo,
O coração não se cansa,
Não se cansa de esperar! ...



**************



NÃO



Cerro os punhos e grito,
Revoltado, aflito,
Cansado de sofrer:
- Não ... e Não !
Basta de viver
Atormentado ! ...


Quem me estende a mão?
Quem? E a gente
Que passa,
Que passa indiferente,
Vai balbuciando
E murmurando,
Intimamente:
- Não ... e Não ! ...


Sempre o Não ...
No ontem, no agora,
No amanhã, no depois ...
Sorriem meus lábios...
E a minha alma chora ...
Choramos os dois,
Nesta solidão,
Onde há eco,
Sempre o eco do mesmo Não ! ...



***********



PERGUNTAS



Ouviste a voz do vento, gemebundo,
No arvoredo?
Ouviste a voz do mar – quase oração –
Nas areias da Praia
Ou, ecoando, no duro penedo?


Ouviste a voz da brisa,
Murmurando, quase a medo,
Um misterioso segredo
Que mal se pode entender?


Escutaste a voz das coisas
Que, na solidão da noite,
Falam do silêncio,
Silêncio que apavora
E conforta e esmaga?


Acaso, tentaste, um dia,
Entender a grandeza da tragédia
Que se esconde, na espuma da vaga?


Dizer que a vida é bela, quando há tanto
De podridão e mal, em cada canto,
Onde se julga haver paz e alegria !


Doce ilusão que se acalenta, em vão,
Enquanto a gente sente o coração,
Batendo, breve ou lento, em cada dia ! ...



*************



INTERROGAÇÃO


Não tentes afastar-me do meu rumo,
Que eu bem sei o que quero e onde vou...
Não lembres o passado porque é fumo
Duma chama que, há muito, se apagou !


Da labareda ardente só ficou
A cinza da quimera e nada mais ...
Do meu passado tudo se queimou ...
E apenas restam meus doridos ais !


E deixem-me ficar, assim sozinho,
Com todo o sofrimento, no caminho
Que me há-de confundir ao Redentor ...


E pensar, meditar profundamente :
- Por que motivos alimenta a gente
Invejas, ódio, em vez de Paz e Amor ?



*************



ROMEIRO



Romeiro que vens de longe,
Caminhando sempre a pé,
És viva imagem de um monge,
És vivo exemplo de fé !


Romeiro da Ave Maria,
Quem te ensinou a rezar?
Dia e noite, noite e dia,
Orando sempre a cantar !


É tão belo o que sentimos,
O que nasce dentro de nós,
Quando, muito ao longe, ouvimos
Os ecos da tua voz !


Romeiro da minha terra,
Quem há que possa entender
O quanto de belo encerra
O teu místico, viver ? ! ...


Tua romagem de amor,
Á volta da nossa ilha,
É um hino de louvor,
É a luz da Fé que brilha !



***************




QUANDO ?


Será hoje? Amanhã? Será depois ?
Sabes lá quando chega a nossa hora !
O certo é que um de nós, de nós os dois,
Quer queira que não ir-se-á primeiro embora !


E o outro, o outro fica, neste mundo,
Tão cheio de venenos e maldades,
Alimentando o mesmo amor profundo,
Embora muito cheio de saudades !


Porque razão, querida, é tão intenso
Este continuo e negro sofrimento,
Que fere o coração, sempre que penso
Que a vida passa breve, como o vento !


Mas, enquanto o Senhor nos der a vida,
No sagrado cantinho deste lar,
Faremos tudo por viver, querida,
Orando, a toda a hora, o verbo Amar !



****************




MISSA DISTANTE



Quando, por tua mão, eu caminhava,
Ainda noite, para a missa cedo,
Com que alegria, Mãe, e com que medo,
Em apressado andar, te acompanhava !


Medo, por ser ainda noite escura ...
E uma alegria sã porque ia ver
O Deus que era a razão do meu viver,
O Deus - Bem, o Deus – Paz, Amor, Ventura !


Era o Templo alumiado pela luz
Bruxuleante de círios derretidos ...
E com meus olhos sãos, entristecidos,
Eu via-te, na Cruz, é meu Jesus !


Cá fora, ecoava, a voz do sino ...
No ar, pairava um cheiro a alecrim...
Não sei o que sentia, dentro de mim,
No meu coração puro, de menino !


Eu tinha medo, medo de perder
A ideia de jamais, com tua mão
Na minha, então voltar à oração
Dessa missa que eu não voltei a ter !


Ela tinha um sabor bem diferente ...
E quando se voltava ao adro, o dia,
Alto já, espalhava uma alegria
Que contagiava toda, toda a gente !


Missa cedo, de um tempo já distante ...
Com que saudades eu te lembro agora ...
... Um cheiro a rosmaninho, cá por fora,
Lá dentro, incenso, preces, voz cantante !


No confessionário, balbuciando
A voz do pecador, arrependido ...
E o velho cura sente-se perdido
Nesse mar de perdão que vai doando !


Missa cedo, levaste-a, Mãe, contigo !
Que eu nunca mais voltei a vê-la, não!
Mas deixaste-ma a Fé, no coração,
Que veio para ficar sempre comigo !



***************




NÃO ME ABAFES, NO SILÊNCIO ! ...



A ti, Poeta, sonhador,
Que vives, neste mundo desolador,
Tentando, em vão, como a hera,
Trepar a árvore da quimera,
Forjando Paz, criando Amor,
Trazendo, nos lábios, um sorriso enganador,
Um sorriso de ilusão ...
... E, no rosto, a Primavera ...
...E o Inverno, no coração !


A ti, Poeta, meu amigo e meu irmão !
Por que nasceste comigo ,
Para meu castigo?
- Caminhamos, dia a dia,
De mãos dadas ...
Unidos pela dor ,
Longe da alegria ! ...


A ti, Poeta, que ris quando eu rio ...
Que choras quando eu choro,
Que vives, isolado,
No mesmo canto onde eu moro ...


A ti, que encontras, em cada flor,
O símbolo vivo do amor ...
Que entendes num rosto enrugado
Toda a história, alegre ou triste
De um passado !


Porque não me deixas viver sozinho ,
Pisando apenas o meu caminho ? ...


Por que és assim?
Para que vieste viver?
Até morrer,
Dentro de mim ?


Não me abafes no Silêncio !
Deixa-me gritar :
- Basta de sofrer ! ...


Na minha vida, quero apenas
Saber conjugar
O verbo Amar ..
... O verbo Amar !




*********************



MONOTONIA



Monotonia é o quadro
Cuja moldura é o mar ..
Nela tudo é sempre o mesmo ...
A mesma onda a rolar ...


Todos os dias o mesmo ...
O mesmo rico, a passar,
Frio, apático, indiferente
Ao mal que o anda a cercar !


A mesma chuva tombando ,
O mesmo vento a assobiar ...
E as mesmas folhas valsando,
Num macabro rodopiar ...



Ninguém entende, ninguém,
Esta amargura sem fim
Que, de quando em quando, vem
Aninhar-se dentro em mim !


Nem a nuvem que, no ar,
Vai correndo, distraída ...
Gente anónima a passar,
Indiferente à minha vida !


Vai-se um dia ... e outro dia ...
E mais outro que se esfuma ...
Há tédio, monotonia ...
Mas alegria ... nenhuma !




************




VIDA


Meus dias vou passando, na esperança
Enganadora de que o fim vem longe ...
É um pensar de fervoroso monge
Que de agruras da vida não se cansa !


Mas se, dentro de mim, na vida, avança
O desespero, sinto-me vencido ...
E, desolado e triste, enfraquecido,
No amargo olvido meu pensar se lança !


É que me custa muito acreditar
Que haja quem deixe o tempo, em vão, passar
Sem elevar a Deus o pensamento ...


Pois que a vida é um fumo que se esvai,
É um sopro mais leve do que um ai
Que, breve, põe seu termo ao sofrimento !




*********************






Ai, se eu pudesse evadir-me
De mim mesmo,
Desta prisão
Que me põe grades, no coração ...
Se eu pudesse partir, correr,
Caminhar sem norte,
Correr , a esmo ,
Na floresta dos meus sonhos ,
E colher rosas orvalhadas
E alvas hortênsias
Nas bermas das estradas ...


Mas correr, cantando
Hinos de louvor à vida ,
Pelo odor
Que se emana da natureza
Pelo bem da Humanidade,
Pela pétala caída ...
Pela beleza
Da flor
Que nos enche a alma e o olhar
De alacridade
E cor ! ...


E continuo a viver ,
Encarcerado ,
Mesmo dentro de mim ...
Esmaga-me o silêncio
Das coisas, das pessoas ...
E a labareda da loucura
Continua crescendo, no incêndio
Da floresta dos meus sonhos !


Ai, se eu pudesse evadir-me
Das grades do meu coração ...
Não mais sofreria,
Como sofro ... Não ! Não !


Agora, já tudo é cinza ...
Já tudo é pó ..
E recomeço a sentir-me, no mundo,
Isolado...Só...Muito só...
Cada vez mais só ! ....



*****************



CANTARES DO MEU SENTIR



Olho os telhados e tento,
Muita vez, adivinhar
Quanta alegria ou tormento
Estão eles a abrigar !


Pensa mal o que pensar
Que a grandeza tudo encerra !
É que o monte, sendo monte,
Nunca deixa de ser terra !


E é bem alto ; todavia ,
Em tempos de paz ou guerra,
Que o possua a fidalguia ;
Monte é terra, sempre terra !


Para que hás-de tu pensar
Que és aquilo que não és ?
Nunca se pode avançar
Sem ter asas ou ter pés ! ...


Vi-te passar presunçosa,
Orgulhosa, no caminho !
Não conheço uma só rosa
Que não traga o seu espinho !


Tal como a flor é a vida ,
Muito breve, passageira ...
Cada pétala caída,
Marca a hora derradeira !


Por que motivo a tristeza
Me domina, sem razão,
Quantos mundos de beleza
Envolvem meu coração ?


Nada é certo, nesta vida,
Onde só existe um norte
Que nos aponta a descida,
Á negra vala da morte !


Quando te vejo chorar,
Solta-se triste, meu canto ,
Tentando, em vão, abafar
As agruras do meu pranto !


Tudo aquilo que se sente,
Cá dentro, no coração,
Não pode entender a gente
Que não sinta o mesmo, não !


Nada já de ti existe,
Amarga e triste verdade ...
Desde a hora em que partiste
Chora connosco a saudade.


Se eu pudesse, num segundo,
Ser o quanto pensas ser ;
Não havia, neste mundo,
Ninguém com tanto poder !


Esfumam-se anos passados ...
Vim nas asas da ilusão.
Trouxe meus olhos molhados ...
Deixei-te meu coração ! ...


É a flor que mais floresce,
Esta flor da gratidão ...
Quanto mais se colhe, cresce
No jardim do coração .

Quando o Sol, hóstia sagrada,
Cai na vala do poente,
Com véu da noite calada ,
De luto se veste a gente .


Ninguém deve censurar
O que não sabe entender ...
Não pode o mudo falar ,
Nem o cego pode ver ! ...


Cantares da minha dor ,
Cantares do meu sofrer ,
São meus cânticos de amor
Que ninguém sabe entender ! ...


Como o tempo corre, passa ,
Bem veloz , quando a alegria ,
De mãos dadas , com a graça ,
Vive em nós , em cada dia !


Ser poeta , sabes lá ,
Como é triste ser poeta ! ...
Ouvir o nosso sentir ...
Viver-se a vida de asceta !


Nunca sintas pena, não ,
De não saberes cantar ...
Quando canta o coração ,
Há vontade de chorar !


E que sabes tu da vida,
Se não chegaste a viver ,
Pequena fase dorida ,
Do seu dorido sofrer ? ...


Tanta mágoa, tanto espinho ,
Tanta lágrima salgada ,
Encontramos no caminho
Desta vida amargurada ! ...


Com a cara de “ bonzinho “
E terço sempre na mão,
Enganas qualquer santinho ,
Mas, o Senhor, é que não ! ...


Como tem sido tão bom,
Para nós, Nosso Senhor,
Que nos vai envelhecendo,
Remoçando o nosso Amor ! ...



*************




MENINO DE ROSTO SUJO ........


A ti, menino de ninguém



Sem norte era teu caminho,
Jornada de mágoa e dor ...
Tinhas sede de carinho ...
Trazias fome de amor !


De rosto sujo, menino ...
Como é negro o teu destino !


A lágrima que rolava
No teu rosto macerado,
Amargamente falava
De um tormentoso passado ...


Um passado curto ainda
Tão tristemente marcado ...
A este mundo, tua vinda
Foi o fruto do pecado !


Dum pecado que persiste
A marcar a tua vida ...
Uma esperança tão triste
Feita de esperança perdida !



Como é negro o teu destino !
De olhos molhados, menino ...


É que não ter o calor
De mãe, de pai ou de alguém,
É viver-se sem amor ,
Sem carinho de ninguém !


No rosto sujo teus olhos
Que trazem tanta amargura,
Mostram bem teu mar de escolhos,
Menino órfão de ventura !



De olhos molhados, menino ...
Como é triste o teu destino !



****************





TORMENTO



Bem queria em Graça estar
O resto da minha vida ...
Que amanhã pode chegar
O momento da partida ! ...


Quanto tempo vai durar
O nosso viver, querida ?
Quem pudesse adivinhar ,
Como e quando a despedida !


E tudo isto é quanto inquieta
A minha alma de poeta,
Que não cessa de sofrer ,


Com esta ideia constante
De que a vida é um instante
Que mal se chega a viver ! ...



*************



MAR



Espuma branca subindo ,
Subindo sempre, no ar ,
É rendilhado caindo
Nas salsas ondas do mar !


Mar castanho, mar cinzento ,
Mas sem ter cor definida ..
Mar que fala do tormento
Que atormenta a minha vida !


Eu não posso viver, não ,
Um só dia, sem ver mar ...
Dá-me vida, ao coração ,
O seu doce marulhar !


É meu ímpio carcereiro ...
Não me deixa em liberdade !
Mar dum luar de Janeiro
Mar dum luar de saudade !


Por que me prendes assim,
Quando, às vezes, fugir tento,
Para enfrentar dentro de mim
E abafar o meu tormento ?


Deixa-me partir, um dia,
Para, mais tarde, voltar
Nos braços da nostalgia
E então poder-te abraçar !


Não posso, nem sei viver
Sem ouvir a voz do mar,
Que me faz adormecer
Nessa canção de embalar !


Mar da morte, mar da vida ,
Mar de lágrima salgada ...
Tens tristeza, na partida,
E alegria na chegada !



*************



NOVO LAR


O nosso pai e a nossa mãe velhinha,
Chorosos, hoje, vêm-me partir,
Um novo lar, “ ditoso ? “ ir construir,
Pequeno “ reino “ onde serás rainha ? ...


Partes feliz, bem sei, tenho a certeza.
E eu fico triste, só talvez por ver
Os nossos pais chorando, sem saber
Se choram de alegria ou de tristeza !


Na hora em que partiste, em que deixaste
O lar, onde nasceste, onde brincaste
E emoldurou a tua mocidade,


Alguém veio preencher o teu lugar :
Silenciosa e triste eu vi entrar,
A pálida figura da Saudade ! ....

22-05-1943



*******************



POESIA


Poesia?
Vais encontrá-la numa candura do olhar
De uma criança !
Na ruga tortuosa e funda
De um velho que abandona
A barca da esperança !


Poesia?
Ei-la que surge, em teu caminho,
Recordando uma história do passado ,
Eivada de beleza ,
Com momentos de alegria
E horas de tristeza !


Poesia ?
Existe, sim, existe
No indizível encanto
Duma flor...
Num breve momento triste ...
No rumorejo da fonte,
Na imagem da saudade
Que se perde no horizonte,


No adeus de quem parte,
No adeus de quem fica,
Em tudo que se envolve
De encanto e sonho e arte ! ...


Poesia?
Ei-la, na vida,
Nos braços ressequidos,
Erguidos para o céu ,
Num marcante símbolo de abandono
Que é a árvore despida,
Em tardes pálidas de Outono !


Poesia ?
Ei-la, adormecida,
Nas noites cálidas de Agosto,
No brilho das estrelas,
Na branca espuma do mar,
Á hora triste do sol - posto,
Com a brisa a murmurar !


Poesia ?
Respiramo-la ...
Inunda o nosso viver ...
Existe ... existe em tudo,
Menos nesse tudo
Que se diz poesia,
Sem nunca poesia ser !




*******************




OBRIGADO, SENHOR



Obrigado, Senhor,
Porque hoje, mais uma vez ,
Me cobriste com teu amor,
Pois, neste momento,
Destruindo desejos vãos
Me fizeste entender
Que mais não sou, no meu viver,
Do que simples instrumento
Nas tuas Santas Mãos !


Obrigado, Senhor,
Pelo abandonado que me enviaste,
Tornando-o Cruz, no meu caminho,
Não como aquela, pesada, que arrastaste
No Gólgota, sozinho ..
Mas uma Cruz de Amor,
Uma Cruz de Bem e de Carinho ...
E fizeste, Senhor,
Com que meus olhos vissem
Em cada espinho
Uma flor !


Por isso, neste dia que passa
Te dou um forte Sim ...
Quero inundar-me na Tua Graça,
Com verdadeiro Amor,
Sempre que te lembres de mim,
Sempre que te lembres
Deste pecador ...



Obrigado, Senhor ! ...

Obrigado, Senhor ! ...




****************




UTOPIA


Quem me dera, quem me dera fugir
Deste negro cárcere,
Desta dura prisão,
Onde há muito vivo
Abandonado, cativo,
Nos braços da solidão !


Se eu pudesse viver
Dentro de ti,
E tu, bem dentro de mim,
Mas sem ninguém entender
O nosso viver assim...


Isolados neste mundo ...
Alimentando uma esperança
Que virá, não sei bem donde ..
... Na chama do amor vivendo,
O coração não se cansa !


Quem conseguisse viver este dia,
O dia de hoje, como se fosse
O último da minha vida ...
Esmagando ressentimentos,
Aleijando-me de toda a podridão
Que me enegrece a alma e enluta o coração !


Quem pudesse suster
Os passos incertos
No caminho errado
Do nosso viver !
E ao passado não voltar ...
E saber esquecer,
Esquecer e perdoar !


Quem pudesse reter
A lágrima que teima,
Dolorida,
Soltar-se dos olhos vidrados,
E que queima
Os rostos enrugados
Dos vencidos da vida ! ...


Mas, nada disto consigo,
No tresloucado pensar
De poeta sonhador ...
Quem me dera esmagar
Todo esse desejo vão
Que nasce da minha dor
E vive em meu coração .



*****************




PARTIDA



Desde a hora em que partiste
- Parece ter sido há tanto –
No álacre lar que tu viste
Há tristeza, em cada canto ! ...


Há mais frio nos serões ...
No silêncio, a alma chora ...
E nos nossos corações
Há menos calor, agora !


Volta, volta novamente,
A tua casa, ao teu Luar
Onde só, com nossa gente ,
Se conjuga o verbo amar ! ...


Contigo, foi-se a alegria ,
E ficou a soledade ...
Na tua cama, vazia
Deita-se agora a saudade !




******************




NEM ESCRAVOS , NEM SENHORES



Deixem-me gritar a minha loucura ...
Quero que ela seja ouvida
E se faça vivo facho, na noite escura
Da minha vida !


Deixa-me dizer Não e Não,
Mesmo quando o coração
Tente arrancar-me um sim....


É que eu quero ser diferente
Dos outros, dos outros ...
E ser somente, somente,
Igual a mim !



Se é de louco o meu olhar,
Maior loucura encerra
O teu fixar ...
Aterrador fixar !


Sou livre ... Quem o nega ? Quem ?
Deixem-me partir, clamando,
Aos quatro ventos,
Que tenho um mundo meu,
Só meu e de mais ninguém ...


Um mundo diferente do teu,
Um mundo que não tem
Barreiras de inveja,
Fundos sulcos de ódios
E tormentos !


Deixem-me cantar a liberdade
De poder gritar
A toda a gente :



- Sou isento e livre !
- Não tenho senhores
Nem sou escravo !
Não quero condomínios ...
Quero total independência ...
Quero ser livre ...
Ser diferente de outra gente,
Respirar o ar puro da liberdade
E ser mesmo um outro Ser diferente !


***************




CARTA




Estou só ... Muito sozinho ...
Na tua ausência, querida,
É mais áspero o caminho
Que vou pisando, na vida !

Nem que seja um só dia,
Sem ti, já não sei viver ...
Foge de mim a alegria ...
... E sinto-me entristecer !


Torna-se o mar mais cinzento ...
Do céu caem gotas de água
Que são farpas de tormento,
Que são lágrimas de mágoa !


Separados, minha dor
Não tem remédio nenhum,
Porque sempre , meu amor,
Tu e eu formamos Um !


Um só Ser, um coração
Que tem o mesmo bater ...
Uma única oração
Aquece o nosso viver !


É por isso que te escrevo ...
Não consigo assim falar
A quem me possa entender,
A quem me saiba escutar !


Mesmo longe, vives perto ...
Muito pertinho de mim.
Podes crer que estou bem certo
De que ninguém vive assim !


Ronda em minha alma a saudade,
Por não te poder falar ...
Cresce em mim esta ansiedade
De escrever, desabafar !


Mas que ilusão esta a minha ...
Nem sequer saber esperar ...
Quando afinal, à noitinha,
Tu voltas ao nosso lar ! ...



*******************



QUEM ?



Que importa que o vento leve ,
Para longe , esta canção ,
Triste e fria, como a neve,
Que envolve o meu coração .


Que importa que seja o vento
Quem me venha segredar
Que apenas o sofrimento
Se adivinha em meu cantar !


Bem o sei, e muito embora
Eu me tente libertar
Desta dor que me apavora,
Me escraviza e faz chorar.


Quem vem comigo, quem vem
Fugir desta soledade,
Em busca daquele bem
Que se chama liberdade ?


Parto, não sei para onde ...
- Quem vem comigo, quem vem ?
E a voz do longe responde :
- Ninguém mais, ninguém, ninguém ! ...


Eu nada consigo, nada ...
Tudo em mim é desventura ,
E pela noite calada
Passeia a minha loucura ,


A gritar o meu tormento,
Esta mágoa que perdura ,
E traz-me, a cada momento,
O fel da minha amargura ...


- Quem vem comigo cantar
O hino da paz e do amor,
E a todo o mundo levar
A alegria e nunca a dor ?


Vai, caminha, sem ninguém :
- Sibila-me a voz do vento,
Quando pergunto : - Quem vem
Suavizar o meu tormento ? ...



**************



MUNDO DE POETA




Se vives por viver, desprendido
Deste Mundo,
Entregue ao teu íntimo sofrer,
Em silêncio profundo ...
Se abres o coração
À dor alheia,
E te saltam também dos olhos
As lágrimas dos outros olhos,
Em triste manhã de Inverno
Ou noite de lua cheia...


Se vibras de encanto
Com a estranha e singular
Beleza
Do céu, do mar,
Da Terra,
De toda a Natureza ...


Se entendes a amargura
Dos torturados ...
Se dás a tua mão, unindo-a bem
À de quem sua mão
Te estende também ...


Se sentes vontade de gritar
Quando a injustiça te gera revolta
E consegue abafar
O clamor que não se solta !


Se entras no Templo
Da tua alma,
Para viveres a vida de um asceta,
Quando te chora o coração ...
Meu amigo e meu irmão,
No sofrimento e na dor,
O teu mundo é um mundo diferente :
- Um verdadeiro mundo de poeta ...
- Um mundo todo Paz e todo Amor ! ...




*****************



IRMÃ TRISTEZA



Era uma vez ... Fatigada
De fazer sofrer e magoar,
Uma fada encantada,
Cansada de chorar e fazer chorar,
Entrou dentro de mim e disse :


- Não quero mais sair desta prisão !
Vou, para sempre, aqui ficar ...
Venho, para sempre morar,
Dentro do teu coração !


- Quem és tu ? – interroguei,
Apavorado.
Ela respondeu :
- Não sei ... não sei ..
Só sei que te não posso ver,
Viver assim,
Atormentado !


Mas, quem és tu, quem me fala assim ?
- És a dor? A saudade ? A amargura ?
- Onde moras e donde vens ?
Do mar ? Do céu ? Da noite escura ?
Ou do ignoto mistério da natureza ?


E a voz de longe respondeu,
Baixinho, como quem reza –
- “ Sem mais sim, sem mais não “ :
- Sou a tua irmã tristeza !
Que importa quem seja eu,
Se vier, nos braços da paz,
Para sempre, adormecer
Dentro do teu coração !




*******************



CREPÚSCULO



Já nada mais espero desta vida
Além do teu amor, do teu carinho,
São bênçãos que me sulcam o caminho
Que vou pisando, antes da partida !


A Cruz é mais pesada, na subida,
E custa-me arrastá-la assim sozinho,
Pois vão peando os anos, á medida
Que as forças vão faltando, no nosso ninho.


E enquanto vamos indo, lado a lado,
Deixamos, na distância do passado,
A imagem dessa mágoa que ficou.


Na esperança de dias venturosos ...
Recordação de instantes tão saudosos
Que, longe, no horizonte, se esfumou !




******************




VENTURA


No 30º Aniversário do nosso Casamento



Tracei, no espaço vão da minha vida,
A imagem da Mulher idealizada ...
E tu surgiste, em sonho, emoldurada
De esperanças e de amor enriquecida !


Fizemos, de mãos dadas, a partida
Para esta incerta e longa caminhada,
Quantas vezes te vi, acabrunhada,
Quanta vez te encontrei desiludida.


E se é certo que também assim me vias,
A tristeza e o desânimo escondias,
De modo a evitar o meu sofrer !


Não sei como é possível, meu amor,
Em alegria, transformar a dor ...
...Ai, como foi tão bom assim viver !


31-10-1984


*************



AGUARELA OUTONAL


O Sol ficou cinzento ; e o azul do Céu
Cobriu-se com um manto esfarrapado ...
E, triste, o coração desalentado
Envolveu-se de luto, em negro véu !


Mas, para quê viver assim. Senhor,
Numa constante e amarga ansiedade ;
Se esta vida é apenas corredor
Que, breve, nos conduz à Eternidade !


A vida também tem o seu Outono ...
Desilusões são folhas, no abandono,
Ressequidas, levadas pelo vento !


Cabelos brancos, rugas bem vincadas,
Olhos tristes de lágrimas salgadas,
São imagens do Outono e do tormento !






JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO

LIVRO " Outono da Vida " 1985


publicado por remospartidos às 23:09
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Terça-feira, 12 de Dezembro de 2006
JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO

NOTAS SOBRE O POETA :

 

O AUTOR

Nascido na freguesia de S. José, em Ponta Delgada, em 25 de Janeiro de 1919, desde muito novo revelou a sua natural inclinação para as letras.

Durante largos anos, foi jornalista, tendo depois continuado a colaborar em toda a imprensa insular.

Proferiu diversas palestras, sobretudo na ilha de Santa Maria onde também exerceu o magistério, transitando depois para uma companhia de aviação estrangeira.

Em Santa Maria foi um dos pioneiros do Emissor do Clube Asas do Atlântico onde criou todos os programas vivos que manteve, com regularidade, por muitos anos.

Acérrimo defensor dos interesses daquela ilha, dirigiu por alguns anos o “ Suplemento Santa Maria“ que o Correio dos Açores, por iniciativa do seu então Chefe de Redacção Manuel Ferreira, escritor de reconhecido mérito, editava mensalmente.

A obra do autor, José Maria Lopes de Araújo mereceu sempre da critica as melhores referências.

O Poeta dedicou-se ainda, nos seus trabalhos jornalísticos, à critica social, e ao teatro ligeiro, deixando o seu nome ligado, com notório relevo, a esta outra faceta da sua apreciada actividade literária.

Na sua poesia, que revela sempre uma sensibilidade requintada, predominam uma tristeza e uma  nostalgia que deixam transparecer frutos de um vida inquieta e angustiosa.

“ Remos Partidos " envolve-se num negro véu de ansiedade que nem ele próprio, Lopes de Araújo, o autor, consegue esconder.

 

 


PREFÁCIO


                      Pelo Prof. Doutor Gustavo de Fraga 

Depois de longos anos de ausência – por último também da poesia e dos poetas – prefaciar com responsabilidade plena um livro do Poeta Lopes de Araújo torna-se muito difícil para mim. Se o regresso é, em primeiro lugar, um tanto mais directamente, retorno ao espaço físico e ao seu logos temporal, o voltar à leitura de Lopes de Araújo é simultaneamente um voltar atrás situando-me demasiado exactamente no tempo, ao encontro de circunstâncias de juventude em que lhe ouvi ler alguns dos seus primeiros versos, em tertúlias de amigos, nos serões ilhéus de há uns bons quarenta anos.

Gerações de estudantes que haviam passado pelo Liceu Antero de Quental de então, na época única escola oficial secundária do distrito de Ponta Delgada, haviam recebido, com os programas, com boa ou suficiente vontade alinhavados para conclusão dos cursos, algo de muito importante: o incitamento à vida do espírito e da cultura que provinha do convívio com um grupo de professores relevante no sector das letras e da poesia. Educáramo-nos um pouco também nas suas obras, que nos abriram perspectivas. Basta lembrar que Côrtes-Rodrigues adquirira projecção, não só como expressão destacada do espírito açoriano, mas também no contexto das escolas poéticas – literárias do espaço da língua portuguesa, incluindo o Brasil.

A Segunda Guerra Mundial criara também nos Açores, muito especialmente em São Miguel, para onde então se encarou a eventualidade de transferir a capital portuguesa, um ambiente característico, em que se cruzavam as influências açorianas e as continentais, através da divisão militar distribuída pelos diversos pontos estratégicos. Se no espólio do anedotário de Ponta Delgada aflora a recordação de um certo perdigueiro que corria com afã atrás das setas e riscos com que os estudantes iam pintando as paredes, em circuitos que voltavam caprichosamente ao ponto de partida, isto não foi tudo. Jovens da mais variada província portuguesa, de norte a sul, alguns vocacionados para as letras, misturavam-se com grupos locais em que coexistiam os mesmos interesses.

Assim, a tradição e o ethos açorianos puderam confrontar-se com diversas correntes de inspiração literária e estética. Assim se estimulava a persistente e enraizada tradição poética local, em que, no nosso meio, a espontaneidade da lírica popular de Virgílio de Oliveira, amigo dilecto de Lopes de Araújo embora  de geração anterior, assinalava o trânsito da poesia culta para a inspiração popular.

Boémio e espontâneo, ainda o recordo claramente nas longas conversas que se terminavam primeiro no Largo 2 de Março, depois no Largo do Colégio ou no jardim adjacente.

Foi neste convívio diversificado que, por exemplo, percebi que António Nobre ainda impregnava com a sua lírica a educação poética do norte de Portugal. E por aí, eu, educado no simbolismo do poeta da minha pequena ilha de origem, Roberto de Mesquita, corri à leitura do Só, que ficou por entre as predilectas. É que foi nesse convívio que pude ouvir alguns dos primeiros e belos poemas do então jovem poeta Egito Gonçalves, que vivia na solidão oceânica e na monotonia do quartel que lhe coubera, a recordação da encantadora Leça, de varandas e canteiros floridos. Nunca mais o vi e só o li, muitos anos passados, praticando ao que me pareceu, uma estética literária diferente.

Este um exemplo, entre outros possíveis.

Lopes de Araújoo animador nato destes grupos, era o mais produtivo nos círculos que se formavam. Logo se destacava pela emotividade intensa com que vivia os seus temas, pelo pessimismo da sua inspiração romântica e pelas suas preferências: José Duro, Manuel Laranjeira, Florbela Espanca, que sabia de cor.

O simpático e malogrado Raposo de Lima, que nas horas vagas se dedicava à pintura, mas que no sonetilho expressava fina sensibilidade lírica, era também trazido pela sua mão ao nosso conhecimento e convívio, como amigo mais velho e distante.

A morte, “ que não diz nem sim nem não, sai bruscamente da sua emboscada e varre com um golpe de asa os nossos planos “ , na expressão de Baudelaire, ou a “ possibilidade incondicional e inultrapassável “ , da linguagem filosófica, revestiu, desde cedo, para   Lopes de Araújo um sentido peculiar. Ela lhe levara suas irmãs Natália e Gildeberta, em verdes anos, e a terrível “ senhora absoluta “ da vida tornou-se-lhe em indecifrável mas obsidiante motivo de inquietação poética. Não se trata de uma vivência literária ou representada, mas do peso de uma experiência vivida na dimensão total de uma angústia diária: dia a dia Poeta   Lopes de Araújo  tem vivido desesperadamente a morte destas suas saudosas irmãs, a cuja memória dedica o primeiro livro de versos, Noite de Alma, publicado em 1944. Assim tomou rosto a sua esfinge: a morte.

A noite, propícia à imaginação, é, por isso, em Cinzas Quentes "seu segundo livro, noite que ronda à porta e que enche o lar de trevas. É de mistura com este sentimento nocturno que o amor, para este poeta eminentemente lírico e romântico, se torna uma vivência tormentosa e exigente que há-de preencher a angústia de uma vida ameaçada ora pela morte, ora pela partida dos filhos do lar paterno.

Por isso, o risco insuportável que ronda a vida assume, num sentido mais lato, o lugar de ameaça da morte, num alargamento que desenha a evolução do Poeta até este seu último livro, " Remos Partidos "

Não vou dizer, porém, que não se nota em  Lopes de Araújo sobretudo neste livro que agora se publica, uma certa luta para alterar a perspectiva com que este peso de ameaça sobre a vida é, na sua poesia, agressiva. Este esforço de libertação ocorre com o advento da segunda metade da existência, quer seja por uma experiência mais favorável, quer seja por uma sabedoria de resignação. Com efeito, para além da meditação sentimentalmente elaborada sobre as situações que oprimem o homem, singular ou colectivamente, afloram com frequência, nos últimos livros, motivos humanos a que a lírica popular oferece modelos, sem que, naturalmente, o Poeta Lopes de Araújo se tenha tornado outro.

Lopes de Araújo conseguiu, sobretudo no soneto, uma forma literária em extremo correcta, reconhecida, por exemplo, por Alfredo Guisado, que o incluiu na antologia dos melhores sonetos da página de letras que por 1952, o diário lisboeta “ República “ publicava. Por isso também Oliveira San-Bento, poeta micaelense que prefaciou Noite de Alma " , destacou a perfeição clássica da sua forma literária.

Eduíno de Jesus, por seu lado, salientou o timbre genuíno da “ nota romântica “ de Noite de Alma " .

Seria, todavia, inexacto dizer que a estética literária de  Lopes de Araújo   se limitou ao soneto ou ao decassílabo . Na redondilha e no verso livre alguns dos seus poemas são de grande  densidade emotiva e atingem destacada expressão formal.

Em " Falas do Coração ", de 1970 o soneto está mesmo ausente e é em extremo raro neste último  livro " Remos Partidos " – metáfora de desalento que não impedirá, seguramente que nos brinde no futuro com outras obras poéticas em que a sua inspiração se revele com a mesma veemência de sempre e talvez em novas perspectivas de triunfo sobre a angústia de uma finitude que oprime pesadamente. É o que deixam prever alguns diálogos do poeta consigo próprio, como, por exemplo, no poema “ Quando … “ em que se interroga sobre a possibilidade de transformar a dor em alegria. Cremos que, aliás, o Poeta está insensivelmente nessa  via, não obstante as notas desanimadas de " Remos Partidos " , a lembrarem que " Noite de Alma " está na sua génese.

Assim, pode dizer-se que só agora  Lopes de Araújo  começa a tomar consciência total do seu problema e, por via poética, vislumbra a sabedoria, que não será um repouso, mas a conquista de um longo esforço em que a sua sensibilidade tem emprestado à linguagem a musicalidade comovedora das suas palavras revoltadas contra o que impede os homens de serem livre e felizes. De facto, um dos lados da questão acaba por esclarecer-se : a liberdade e o poder do homem são finitos e é dentro da condição humana que temos de nos salvar.

O Bem como “ pão de cada dia “ , de que fala  Lopes de Araújo é uma forma  muito feliz e acessível de reencontrar-se com a resposta que Antero, nosso conterrâneo, descobriu no Bem e na Consciência, no seu caminho de dúvidas e desesperos, à angústia do homem que não quer iludir-se na inautenticidade medíocre da satisfação e do contentamento consigo próprio. É preciso, porém, aceitá-la e trabalhá-la com decidida convicção, para que  a “ Canção da Liberdade "possa ser cantada em uníssono na “ terra da nossa gente “ , “  sem escravos nem senhores “ , como o poeta a visiona.

E quem não a entenderá e estimará na voz da poesia, nesta Ilha do Santo Cristo ?


GUSTAVO DE FRAGA 

 


DEDICATÓRIA

 

“ REMOS PARTIDOS “ são pedaços de um coração cansado de viver, mas nunca fatigado de amar.

Por isso que entendo que sejam para ti, Maria Luísa, minha doce companheira, e para os nossos queridos filhos, estes pobres versos, vivo símbolo do quanto sofri, amei e aspirei.

Vivo neles, nestes modestos poemas. Por isso neles ficará a minha alma, a acompanhar-vos pela vida fora, para que, nos momentos de desânimo ou de saudade, eles sejam lidos como oração de amor.

....................................................................................

 

JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO

 

 



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Transcrição do Livro " REMOS PARTIDOS " - Parte II
VIVER


Quem vem, quem vem bater à nossa porta,
Nas horas de tormento e de amargura?
Quem vem trazer-me o bem que me conforta?
Quem vem juncar-me a vida de ventura?

Quem, no silêncio desta noite morta,
Me segreda baixinho e me murmura
Um madrigal antigo que me corta
O coração e o enche de ternura?

É a lembrança? A dor? É a saudade?
É o tempo? A distância? A idade
Que, tristemente, ao longe, o amor me acena?

Não sei! Não sei! Se chamam, pois, viver
A um misto de dor e de prazer,
Viver assim, meu Deus, não vale a pena!


*********************************


TRISTEZA


Hoje, não sei porquê, mas sinto em mim
Um misto de amargura e de tristeza …
Talvez por esta trágica certeza
Da caminhada se ir chegando ao fim.

Talvez porque lançando uma mirada
Ao longo do caminho percorrido,
Do pouco ou muito que haja construído,
Bem pouco veja ou mesmo quase nada! …

Hoje, sinto-me triste. E, muito embora
Tente esmagar o mal que me apavora
A tétrica incerteza que me invade.

Nada consigo, nada. Em vez de amor,
Encontro, em meu caminho, apenas dor,
E mágoas e tristezas e saudade!

 

*****************************

DILEMA


Leva o meu poema…
E grita-o no silêncio
Da rua dos sem nome,
Dos sem esperança,
Que passam na vida,
De braços erguidos,
Para abraçar a fome!

Grita
Estas palavras desconexas …
Tormento e gargalhada,
Mágoa e luto, prazer e dor …
Palavras desconexas
Que não são revolta
Nem ódio, nem amor!

São apenas palavras
Que traduzem este trágico
Dilema,
De no silêncio afogar a dor
Ou de gritar, mais alto, o meu poema!


*********************************


PARAGEM


Quando vejo partirem deste mundo,
Os que ontem caminharam a meu lado,
Mais confrangido, mais desamparado
Me sinto, nesta mágoa em que me afundo!

E paro então na vida. E vou contando,
Ao dolente bater do coração,
As horas e os minutos que se vão,
Na vertigem dos tempos, esfumando.

E tento, em vão, erguer o voz aos céus,
E perguntar : por que será, meu Deus,
Que mesmo se sabendo que o Porvir

É correr para Ti, ninguém, ninguém
Anseia esse momento em que se tem
A Graça, a grande Graça de partir?...


****************************


ANGÚSTIA


Quero voltar ao tempo que deixei,
Na distância da vida que vivi…
Ouvir, ó minha mãe, junto de ti,
As canções de embalar que tanto amei.

Sentir, na minha, a tua mão amiga,
Amparando meus passos vacilantes …
E ouvir, de novo, aquela história antiga
De mágicos, de fadas e gigantes! …

Voltar a ver-te, mesmo que velhinha,
Para te dar aquele amor que, então,
Não soube repartir. Por culpa minha,
Guardara-o avaramente o coração!

Voltar a ver o rosto que beijei,
Quando me aconchegavas, junto a ti …
Voltar a ter o tanto que nem sei
De tudo que me davas e perdi!

E bate o coração desalentado!...
Aonde vais, pensamento? Aonde vais?
Agora, nada resta do passado…
Apenas a saudade e nada mais!...

 

**************************


INQUIETUDE


Que julgas tu? Que pensas de ti mesmo,
Se és átomo que segue para o nada?
A vida é esta triste caminhada
Que fazemos, em vão, sem norte, a esmo!

Que pensas tu da vida, se o amanhã
É tão incerto, como o próprio vento?
Surja embora a ventura, num momento,
Se apaga como a estrela da manhã!

Tão pouco vale o mundo de paixões
Que se geram de loucas fantasias …
Tudo se esfuma e esvai, nos breves dias,
A que se prendem nossas ilusões!

Abre os teus braços, abre, e beija e abraça
Os pobres que encontrares no caminho,
Que ficarão mais ricos de carinho,
Mais cheios de ventura, Amor e Graça! …

Vamos lutando pela vida fora…
Abre os teus braços, abre e vem comigo,
Fazer de cada Ser um novo amigo
E dar a cada norte nova aurora.

Estende as tuas mãos aos que, a teu lado,
Caminham, sem destino e sem esperança …
Que o desespero, quanto mais avança,
Mais agiganta a mágoa do passado!

A vida é isto apenas. Tudo o mais
Não passará de sonhos, de ilusões …
Olha o terror, no ferro das prisões…
Olha a amargura e a dor nos hospitais!


E aquele que ali vai, braços em cruz,
Sobre o peito, deitado num caixão,
Também sentiu vibrar o coração,
Por tantas podridões! Jesus, Jesus,

Se a vida que nos deste tem por fim
Ser vivida com mística beleza,
Porque razão a vestes de tristeza?
Por que nos deixas Tu viver assim? …


****************************


ILHA AZUL


Ó Ilha Azul, de magia …
Terra de encanto e beleza…
Gera-se em ti a alegria
Que mata a minha tristeza!

Eu não sei por que razão,
Um dia, quando te vi,
Te trouxe no coração,
E nunca mais te esqueci.

Seria o Pico, altaneiro,
Que se espreguiça no mar,
Toda a noite e o dia inteiro
E te fica a namorar?...

Tenho ciúmes do Pico
Que não deixa de te ver…
Só eu, longe de ti, fico
Com saudades, a sofrer.

Ó Ilha Azul, de magia…
Quem te soubesse cantar!
Quem te visitar, um dia,
Jamais te pode olvidar! …


*************************


SUPREMO ANSEIO


Se eu pudesse prender este dia,
Deter sua marcha fatídica,
Sobre a distância infinita dos tempos,
Sorveria o ar benfazejo
De toda a ventura
Da hora que passa!

Se eu pudesse dizer Não
Aos loucos impulsos do coração …
Abraçar o azul dos céus,
Mesmo sujo de farrapos cinzentos…
Se eu pudesse gritar:
 - Bom dia! Bom dia!
Mesmo quando a alma, a sangrar
De dor,
Se afoga em lenta agonia…

Ai, se eu pudesse ser aquele
Que não sou…
Aquela imagem do amor
Que recebo e não dou …

Se eu pudesse atear,
Nos corações,
A chama da esperança
E da justiça,
E apagar
O fogo da vingança,
A labareda da maldade
Que o vento do ódio atiça,
Queimando a Humanidade …

Então, sim…
Que ninguém
Tivesse pena de mim!
Teria o mundo
Na minha mão…
E o Universo do Bem
Dentro do meu coração! …


*****************************


MEDITANDO


Passo na rua;
E vejo que, a meu lado,
Outros caminham,
Olhando o vácuo da vida!

Passo na rua;
E vejo os olhos que olham sem ver…
A doença que se esconde um rosto esquálido,
Pálido e triste.

O braço que se estende,
O órfão que chora,
E tantos outros males
Que o homem – por egoísmo – ignora!

Passo na rua …
E o grito que invade
O silêncio da noite,
Noite de aldeia, de vila
Ou cidade,
É gritos que traduz
O peso do fardo,
O peso da Cruz
Que arrasta cada qual,
Expiando afinal
O mal da própria Humanidade!


*******************************

 

SAUDOSISMO

 

Que fiz da juventude que eu, outrora,
Julguei que nunca mais se perderia?
Foi-se esfumando, lenta, em cada dia,
Num silêncio que esmaga e que apavora!

E quando o Sol se esconde e a noite desce,
Até que novamente surja a aurora,
Esta ânsia de viver germina e cresce
Em cada alma onde a angústia mora!

Mesmo se penso que vivo sem ter
A ventura que sempre desejei,
Sinto vontade de voltar a ver
O que o tempo levou e eu tanto amei.

Esperanças e sonhos e quimeras…
Ai quanto custa, quanto, acreditar
Nas ilusões, nos sonhos de outras eras,
Sem se sentir vontade de chorar!...


*******************************


REMORSO


Sinto remorsos, sinto, de não ter
Gritado, aos quatro ventos, tudo quanto
De bom teria feito, como santo
Que fui predestinado, ao meu nascer!

Remorsos por não ter vivido a vida
Como Jesus viveu: - Semeando o Bem,
Amando todos, sem magoar ninguém;
Trazer a alma de Paz enriquecida.

E por não ter sabido perdoar
A quantos me feriram e me dão,
Ainda, a dura prova do seu Não
Ao amor que eu, em vão, tento esbanjar.

Não saber derramar a caridade,
Sem discriminação … Não dar amor
A quantos vão sofrendo a amargura dor,
No silêncio da sua soledade!

Remorsos tenho que sentir, enquanto
Não for aquilo que eu quisera ser,
Semeando o Bem e o Amor, a cada canto,
Como única razão do meu viver! …

 

MEU MENINO … MEU MENINO …

O menino nasceu,
Alguém o esperou, sofrendo, chorando …
E o tempo correu,
E o tempo passou …
E veio a alegria ! …

 

………………………….


…..  E o pai trabalhava …
E a mãe ensinava,
De noite e de dia …
E o menino, adorado,
Crescia, crescia,
No alcofa deitado …
E dormia, dormia,
Um sono descansado !


……………………………


E amanhã quem será ele?
Um sábio? Um santo?
Onde fica o seu destino?
Quero tudo para ele,
Ai, para ele quero tanto!

Quem pudesse adivinhar,
Meu menino, meu menino! …
Iria florir o caminho,
Com beijos do meu amor,
Para que nunca, em tua vida,
Se aninhasse qualquer dor !

Iria florir o caminho,
Por onde fosses passando,
Com pétalas de carinho
Que, para ti, venho guardando …

E o Sol, com mais calor ,
Traria, por certo, mais luz …
Que o meu amor, o meu menino
Ainda é Santo, ainda é puro,
Como Tu, ó meu Jesus ! …


********************


NATAL


Hoje … Natal? – Não! …
Só quando os homens se amarem como irmãos …
Só quando o ódio der lugar ao amor,
E a Paz florir, em perpétua Primavera …

Só quando não houver mais grades nem algemas,
Nem grilhetas de torturados…
Só quando as lágrimas se secarem,
Nos olhos amargurados
Dos que sofrem,
E for saciada a sede de justiça …

Só quando a alvorada da alegria
For Sol da Humanidade …
E acontecer pureza
Onde houver maldade…

Só quando o facho da Fé alumiar
A densa treva da noite dos vencidos…
Só quando, tu e eu, e o outro,
E mais o outro, e toda a gente,
De mãos dadas, caminharmos
Em frente, sempre em frente,
De cabeça erguida, sem temor, nem cobardia,
Cantando hinos de amor,
Dizendo, alto, um Sim à Graça,
Ainda mesmo que, sangrando de dor,
O coração
Sinta vontade de gritar : - Não e Não !

Só quando o Mundo entender o Bem
E esquecer o Mal…

Então, Senhor…Então, sim…
Então será Natal!...


*********************


AMARGA SAUDADE


Quando, contigo, caminhava lendo,
Na vida, o Ideal do Amor, da Caridade,
Sentia-me mais perto da Verdade,
Nos caminhos que eu ia percorrendo!

E, agora, ao relembrar esse passado,
Sinto doer-me o coração, no tédio
Desta saudade amarga, sem remédio,
Desse tempo em que andavas a meu lado!

E na inviolável ordem desta vida,
Sem se poder deter a caminhada,
Passaste pelo mundo, de corrida,

Esbanjando o Perdão e a Fé e o Amor;
Por isso, agora, junto do Senhor,
Fez-se mais santa a tua santa vida !


******************


SOLIDÃO


Com que saudade eu lembro aqueles dias
Que breves se passaram, quando a gente
Ouvia os sinos, rezando Ave-Marias,
Às horas taciturnas do Poente.

Era tudo tão belo; e o que dizias,
Nos bons conselhos, Mãe, que tu me davas,
Tinha o sabor de estranhas malvasias,
Tudo aquilo que, chorando, me contavas!...

O teu menino, Mãe, é hoje um velho
Que se arrasta, neste mundo, recordando
As santas orações do teu conselho,
E que, consigo, o tempo foi levando!...

E quando tombam, quantos, a meu lado,
Nesta vida, lá iam caminhando,
Mais só me sinto, mais abandonado,
Na senda do Viver que vou trilhando!...


*******************


DESEJO


Odeio, odeio,
Este tic-tac horrível, cadenciado,
Enervante, que mata
A ventura do presente…
Que prolonga e alonga
A longa noite do doente …
Que limita o tempo da esperança,
E avoluma a hora da angústia,
O momento do desespero …

Este tic-tac horrível,
Cadenciado e lento,
De quem anseia o momento
Da libertação …

Odeio a vertigem
Do tempo que passa,
Do tempo que corre,
E onde tudo se afunda
E tudo morre…

Ai, como seria bela a vida,
Sem o tempo contar,
Conjugando, noite e dia,
Dia e noite, só no presente,
O verbo Amar ! …


************************


INTERROGAÇÃO


Todos os dias eu parto…
E parto sem saber
Se volto a regressar
Ao quarto, ao quarto
Onde, à noite, ao adormecer,
Fico também sem saber
Se virei a despertar!

- E é isto a vida ?

A dúvida, a incerteza,
Num doloroso viver ;
Esta incerteza constante,
Neste duro caminhar …
Esta dúvida que fere
E me anda a torturar,
E a magoar a cada instante !

A dúvida permanente …
Esta inquieta incerteza
Do luto que envolve a gente
Num negro véu de tristeza!

Passa um dia,
Outro dia vem surgindo …
E aqueles que, a nosso lado,
Caminhavam, vão caindo,
Vão caindo,
Tal como as folhas de Outono,
Vão dormindo,
O mais profundo sono,
O calmo sono da Paz,
O sono da Eternidade…

- E é isto a vida ?

Ainda que o seja assim,
Mágoa e dor,
Dor e sofrer…
Vale a pena,
Vale sempre a pena viver!...

Tudo passa, tudo corre;
Tudo passa, tudo foge…
Só não perece nem morre
A amargura da saudade!...


*************************


MISTÉRIO


Na espuma alvinitente  e rendilhada
Que, rolando lentamente,
Desmaia
E se estende
Na areia negra da praia…

Na nuvem que o vento
Leva, e corre
Pesada e distraída…
Na pedra que rola no caminho,
Na ave implume
Que morre,
Gelada,
Caída do ninho…

Na frescura da água
Rumorejante,
Da nascente
Que corre para o mar…
Na agonia do Sol-poente,
Na alegria da brisa cantante…
Ai, quem fora cavaleiro andante,
Com alma de Poeta,
Para tudo isto saber cantar…

Quanto vejo, quanto escuto,
Tudo quero acreditar,
Tudo aceito, tudo sinto…
Mas, Senhor, eu não Te minto,
Se Te disser o que sinto
É tão belo que não sei cantar!...


****************************


QUANDO …


Quando eu souber ouvir
A voz do mar…
E entender o seu bramir,
O seu marulhar…

Quando eu fizer do Bem
O pão de cada dia,
E souber transformar
A dor em alegria…

Quando eu for presença apetecida,
Quando faltar o calor dum carinho…
Quando eu for sal e fermento,
E norte, no caminho
Dos ventos que se arrastam, sem amor,
Dos que vivem sem guarida…
Então, sim;
Então, Senhor,
Poderei esmagar
A minha dor,
E cantar
Um hino de louvor à Vida!...


************************


HINO DE LOUVOR


Bendita sejas,
Pela hora que passa,
Pelo Sol que irradia
Luz e calor…

Bendita sejas, Vida,
Pelo ar que respiro,
Pelos ruídos da rua,
Pelas noites frias
Ou quentes,
Pelas noites escuras,
Ou noites de Lua…

Bendita sejas, Vida,
Pela chuva benfazeja,
Pelo vento gemebundo…
Pela vida da Humanidade …


Bendito sejas,
Porque me embalas,
No mundo,
Com toda a minha impureza,
Com toda a minha iniquidade!...


**************************


ÂNSIA


Se eu pudesse traduzir
Toda esta estranha linguagem,
Que fala do meu sentir
O sopro leve da aragem…

Ai, se eu pudesse entender,
Para poder-te cantar,
Todo este imenso sofrer
De que fala a voz do mar !

Se eu pudesse gritar,
Mas gritar, só para mim:
Não e Não!
Mesmo que, a cantar,
Dissesse um sim
Á voz do coração!...

Assim, e só assim,
Que ninguém mais
Tivesse pena de mim!...


**********************


PRESÍDIO ILHÉU


Mar, sempre mar…
Céu, sempre céu…
O mesmo tom azul de nuvens manchadas,
No meu presídio ilhéu…
Mar, com a mesma cor cinza…
As mesmas garças…
A humidade salgada…
Um sabor de lágrima chorada,
A rolar, a rolar
Sobre o rosto,
De quem vive sonhando,
Para fugir, partir, emigrar!...

Mar… Sempre mar …
O mesmo horizonte, longínquo, distante…
Na minha ilha,
A mesma fonte rumorejante,
Escondida no vale,
Ou no socalco da montanha,
Gritante … Gritante …


Todos os dias rolando,
Com tudo no mesmo…
A mesma sombra passando,
A mesma jovem sonhando,
O ébrio cambaleando,
Lá vai tentando olvidar
Que vive – se é que vive –
No meio do mar … No meio do mar …

Mar… Sempre mar…
Torturante prisão,
A apertar, a cercar,
O meu louco desejo
De evasão!...

Para longe… Nem sei para onde…
Para qualquer parte,
Onde se esconde,
Dia a dia,
Na sombra da fantasia,
A minha fome de arte,
A minha sede de Poesia!...

Mar… Sempre mar…
Caminho… Sempre caminho…
Sempre em frente…Sempre em frente…
Mas tenho que parar!...

E parar,
Porque há mar, sempre mar…
É que, desde que nasci,
Anda-me ele a cercar
A suster o meu caminho!....

Mar…Sempre mar!....


**************************


MANHÃ DE INVERNO


Dia de Inverno…
Dia de chuva,
De vento
E de frio.
Manhã viúva,
Com nuvens cinzentas…
Cinzentas, pesadas;
Janelas fechadas
E porto vazio!...


Dia de Inverno…
Brumas no mar,
Ondas salgadas,
Brancas, irisadas,
Saltando no ar.

Manhã de Inverno
Que lembra a distante,
Com a Missa Cedo, na escuridão…
E o sino cantante,
Dlão, dlim-dlão,
Ecoando nos céus,
Tocando, dobrando,
Chamando os fieis
À santa oração!...

E lá, no alto mar,
A baloiçar, a baloiçar,
Ficam navios,
Partidos, perdidos,
Na tempestade…

Que longa demora,
Aguardando a hora
De regressar…
Mas só Deus é quem sabe
Se hão-de voltar…

No alto da torre,
O som continua,
Na escuridão
Da noite sem Lua,
Tocando, dobrando,
Dlão,Dlim-Dlão,
Chamando fiéis
À santa oração!...


*****************


DESÂNIMO

 

Caminho na vida,
À margem do mundo…
Caminho na vida,
Por caminhar…

Que o Mundo é selva,
Com feras rugindo;
Com feras rugindo,
Não posso parar…

Caminho, caminho,
E meu caminhar
É água de mágoa
Correndo, fugindo,
Caindo no mar,
Num mar de amargura,
De lágrimas salgado.

À margem do mundo,
Num mundo que é meu,
Não vivo parado…
Silente e sozinho,
Lá vou caminhando,
Sofrendo e chorando…
E Deus, e só Deus
É quem sabe até quando!

 

***************************


CONFISSÃO


Já me bate devagar o coração,
Cansado, fatigado de viver…
Eu nada temo, não me assusta, não,
Saber que tenho, um dia, de morrer!

Só me custa deixar-te, neste mundo,
Tão cheio de injustiça e de maldade,
Sem o amparo de meu amor profundo,
A suavizar-te a mágoa da saudade!

Embora parta, vou ficar, querida,
Em cada canto deste triste lar…
Na ternura da lágrima escondida,
Que no teu rosto, então, há-de rolar!

Ai, quanto custa, amor, falar-te assim,
Sem fingimentos e com sã verdade!
É que eu sei o que grita, dentro de mim:
- A voz dorida da cansada idade!...


*****************************


DESABAFO


Quando eu partir, quero partir sorrindo,
Na certeza bendita de que vou
Transformar-me naquilo que não sou:
- Viva imagem da paz, do amor infindo.

À minha dura angústia torturada,
Desanimado, em vão tentei pôr fim,
Dando confiadamente um forte Sim
À vida que eu quisera transformada.

Já quase atinjo o fim da caminhada,
Por este torpe e podre mundo. Assim,
Dilui-se-me a presença e, dentro em mim,
De amor, bem já não existe nada.

Quem vem dizer-me, quem, que a vida é bela,
Se há tanta gente vil que se sustenta
De amargo fel que dói e que atormenta,
De tudo que de mau existe nele?!...


*******************************


ENQUANTO ...


Enquanto não lançares a semente
Do Bem, na tua vida … E só do Bem …
Amando todos sem ferir ninguém,
Dando a tua amizade a toda a gente…


Enquanto te aqueceres na fogueira
Do egoísmo feroz que te calcina,
Bem trágica será a tua sina,
Sem paz no lar, nem chama na lareira…

Enquanto a tua voz for mentirosa,
Clamando um Sim, enquanto sintas Não,
A tua vida, amor, será, então,
Bem mais amarga, bem mais dolorosa.

Enquanto olhares, desdenhosamente,
O que a teu lado passa, no caminho,
Quantas vezes faminto, de carinho,
Na vida a prosseguir, como indigente.

Jamais serás feliz; jamais terás
O conforto que sente quem derrama
A força do calor que vem da chama
Da esperança, do amor, do bem, da paz!


************************

JOSÉ MARIA LOPES DE ARAÚJO



publicado por remospartidos às 23:45
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Transcrição do Livro " REMOS PARTIDOS " Parte I


REMOS PARTIDOS

Na crista das ondas, voguei
Na barca da minha vida …
Tinha largos horizontes,
Mesmo de esperança perdida …

Depois, a brisa soprava …
E a barca, lenta, seguia …
Vagarosa navegava,
E incerta, lá ia, lá ia,
E nas ondas balançava…
Mesmo de ramos partidos,
Ao sabor do mar corria…

E assim foi, lá foi seguindo,
E os anos foram passando …
Noites de luar sorrindo,
Noites de Inverno chorando! …

E a barca da vida lá ia,
Lentamente navegando …
Quebrado o leme, rota a vela,
Remos partidos … lá ia ela,
Baloiçando, baloiçando,
Levando a minha alegria!

Vida sem norte e sem rumo!
Sem forças para navegar,
Trago meus remos partidos
Ando à deriva no mar,
Num mar de sonhos perdidos
Que jamais pude encontrar! …


Trago meus remos partidos,
E mais não posso avançar.
E por isso ando cantando,
Com vontade de chorar!

Remos partidos
São meus poemas …
Poemas caídos,
Na crista das vagas,
Vogando sozinhos,
Perdidos no mar! …


****************************


ILHA DE SANTA MARIA

 

Quem pode partir, um dia,
Sem nunca mais te lembrar?!...
Ó minha Santa Maria,
Quem te pudesse abraçar!

Tenho saudades de ti,
Dos teus vales, dos teus montes …
Foi por ti que me perdi,
Ouvindo o canto das fontes…

… E dos grilos, ao luar,
Nas noites quentes de estio,
Da brisa que vem do mar,
No Inverno, cinzento e frio.

Se, na tua soledade,
Te debruças sobre o mar,
Mais cresce em mim a saudade
De te ver e te abraçar ! …

Ó minha Santa Maria,
Ilha tão abandonada …
Rainha fizeram-te,  um dia …
Hoje, escrava, não tens nada ! …

Onde estão as velas brancas
Dos teus moinhos de vento,
Que a brisa punha a girar,
Em constante movimento?

E o moleiro já cansado,
Subindo a colina, tinha
No velho rosto, enrugado,
Sulcos fundos de farinha! …

E na tarde, quando o sino
Dobrava, ao longe, Trindades,
Marcava no seu destino,
Um destino de saudades ! …

Tuas santas tradições,
Em Maio, mês de Maria,
No Terço e nas orações
Que, nas aldeias, de dia,

O povo ia rezando,
Mesmo ao sair das igrejas,
Para casa, caminhando …
Bendita, bendito sejas,

Santa Maria, ilha Santa …
Que tudo e tudo ceitas,
Mesmo de esperanças perdidas …
Mesmo de esperanças desfeitas! …

Ilha de Santa Maria!
Ó minha terra adoptiva!
Nunca mais te esquecerei,
Por muito e muito que viva.

…………………..
Quem pode partir, um dia,
Sem nunca mais te lembrar ?
Ó minha Santa Maria,
Quem te pudesse abraçar ! …


*****************************


DEIXA-ME PASSAR


Não sei quem és …
Mas, quem quer que sejas,
Deixa-me passar.
Não ergas barreiras
Ao meu caminhar.
Que eu tenho por Norte
O Bem e o Amor,
E o Amor é mais forte
Do que o teu rancor.

Deixa-me passar!
Que importa que eu leve um rumo diferente
Do teu caminhar?
Se é bem verdade
Que as pedras que pisas
Eu piso também,
É bem mais verdade
Que eu trago, na alma, riquezas de amor
Que a tua não tem!

Deixa-me passar …
Que, em meu coração, eu trago um tesouro
De Paz e de Amor, de Amor e Perdão …
E tudo que tenho é para te dar!

Não me ergas mais barreiras,
Não!
Deixa-me passar! …


*************************


POEMA DA VIDA


Perguntas-me o que é a vida!
A Vida, meu amor,
É Amor
E ódio e talvez Morte …
E é semente de Bem que germina Ventura …

Vida é isto … E mais do que isto:
É Cristo
Na imagem do nosso semelhante;
É Amor … É Bem! …

O mar, no seu bramir
Constante,
Grita
Vida, vida que vem
Das suas entranhas,
No pão do marinheiro,
No pão do pescador.

Vida é o adeus
Na hora da partida …
É a angústia
De não poder
Estender
A mão,
Quando outras mãos,
Em gesto aflito
Suplicam ajuda …

Vida
É fome em tugúrios …
É esplendor
Em palácios …
Vida
É o grito sufocado
Que o ódio atiça …
O grito atormentado
Dos que clamam, em vão,
Piedade, amor e justiça! …

Vida,
Meu Amor,
É todo este Mundo
De podridão e de beleza,
Onde se confundem,
Em abismo profundo,
O Ódio e o Amor,
A Paz e a Dor,
A Alegria e a Tristeza! …

Vida é o sorriso enganador,
A soberba revoltante,
A mentira da verdade
Que se jura a cada instante …

Vida
É o negrume do cárcere
Onde se mirram,
Impiedosamente,
Os mais são ideais,
Quando se extingue
A luz da Justiça, do Bem
E da Verdade! …

É a dor daqueles pais
Que choram a perda dos filhos
Que, um dia, abalaram
E nunca mais,
Nunca Mais voltaram …

Vida
É a infância abandonada …
É o “ fruto do amor sem casamento “ …
É o grito sem eco …
É esse Nada
Que é Tudo, um Tudo
Todo feito de prazer e de tormento!

Para quê, pois viver,
Fugindo ao sofrimento
E entregue às vãs delícias da ventura,
Se a vida,
Oh! Meu amor,
É isto,
Este confuso misto
De dor e de prazer,
De gozo
E de amargura ! …

Vida é o rubro da forja …
É o canto do malho,
No ferro retorcido …
É o gemido
Do arado com que a corja
Vai rasgando a terra,
Embriagada de suor!

A corja que nos doa, generosamente,
A mais bela lição de Amor e de Verdade!
De Sol a Sol curvada, com sacrifício e humildade …
E sacrifício é sangue
A redimir a própria Humanidade!

Vida é isto …
Esta amálgama constante de sentimentos …
E sei lá que mais …
Perguntas-me o que é a ávida!
Que mais te posso dizer?
… É a chama misteriosa,
Clarão que, em breve, se apaga;
Chama que ilumina e arde …
E, se a tentamos reacender,
É tarde … Sempre tarde! …


******************************


POEMA DA SAUDADE 

Partiste …
… E nunca mais te vi …
Pálpebras fechadas,
Lábios sorrindo…
Expressão calma,
Doce, serena.
Partiste para sempre.
E uma lágrima brilhando,
Fulgindo,
Na minha alma,
Traçou
O meu primeiro poema …

Poema de amargura,
Poema de Saudade…

…………………………

Ecos da morte …
Vozes da Vida …
Lição de Verdade …

Poema que ficou,
Na minha vida,
Como facho amargurado,
A iluminar-me
O caminho da Eternidade …

Poema de amargura …
Poema de Saudade!


**************************


B A L A D A S


Não tentes nunca saber,
Nunca tentes desvendar
O que se pode esconder,
Nesta palavra chorar.

Chorar traduz alegria …
Chorar é voz de amargura …
Pode ser clarão de dia
Ou sombra de noite escura.

A casa que Deus me deu,
Sendo minha, é também tua,
Logo que entres e feches
A nossa porta da rua.

A saudade é tudo aquilo
Do muito mais que ficou,
Para além da própria vida
Que foi vida e que passou.

Perguntas-me o que é saudade …
E eu julgo bem que o consigo,
Dizendo que é o que sinto
Se não te trago comigo!

Muito diz quem pouco fala …
Ditado velho e feliz!
É mais sábio quem se cala
De quem não sabe o que diz!

Podes bem galgar na vida,
Mas sem jamais esquecer
Que a escada da subida
Também serve para descer!

Trago minha alma cativa,
Numa amargura constante …
Não há saudade mais viva
Que a saudade do imigrante!

Esta Quadra do Natal
Tem tal encanto e magia,
Que tudo nela se esfuma
Em Paz, Amor e Alegria! …

Não há mais tenaz sofrer,
Nem tormento mais pungente
Que não saber-se dizer
Aquilo que agente sente!

Não há mágoa mais sentida,
Nem mais profundo doer,
Do que a morte numa vida
Que começa a florescer.

Neste livro dos meus olhos,
Se quiseres, podes ler
Aquilo que trago na alma
E não consigo dizer.

As palavras nada dizem,
Nem podem ter o condão
De revelar um segredo
Que se traz no coração …

Sinto, ao ouvir-te falar,
Vontade de te dizer
Aquilo que, em meu olhar,
Tu finges não entender!

Por que te deixei partir,
Sem te beijar, nem eu sei …
Ficou comigo a saudade
Dos beijos que te não dei.

Ficou a saudade comigo,
Diferente da que levaste;
A doce partiu contigo,
E a mais amarga deixaste!

Vou guardar, em meu sentir,
As saudades que deixares,
Saudades que hão-de partir,
Nesse dia em que voltares …

Quem te disse que uma lágrima
Consegue a dor apagar,
Certamente que não sabe
O que é sofrer e chorar!

Caiem as folhas, formando
Um mar triste de abandono …
As vidas tombam também
Tal como as folhas de Outono.

Muito tolo é quem afirma,
Em certeza caricata,
Que vive matando o tempo,
Quando o tempo é que nos mata!

Ó mar, salgado e profundo,
Que limitas meu destino,
Na tua água vive o mundo
Dos meus sonhos de menino!

O tempo não pesa, não conta,
Como não conta a idade,
Quando na vida nos unge
O perfume da amizade.

Não sei, nem quero saber,
Quando voltas ao meu lar;
Não podem ver-te meus olhos
Tão cansados de chorar!

Quem bate à porta, quem bate?
Quem chama por mim, quem chama?
A tristeza ou a saudade,
Ou a angústia de quem ama?

Ontem, passaste por mim,
Muito perto, à minha beira …
Não gostei de ver-te assim,
Com tão estranha maneira! …

Eu não sei porque razão
Tu finges não entender
Que, há muito, o meu coração
Anda por ti a bater!

Corri sempre atrás de ti,
Sem jamais poder parar …
E, correndo, me perdi,
Sem nunca mais me encontrar.

Não consegues esconder
O que tens no coração …
Teus olhos sabem dizer
O que tu não dizes, não!

Por isso, tentam fugir,
Quando te fito enlevado,
Muito preso ao meu sentir
De te amar e ser amado.

Quem te pudesse entender,
Quem pudesse adivinhar,
O que me tentas dizer,
Nesse teu coce cantar …

Lado a lado, caminhando,
Quase mesmo que adivinho,
De olhos nos olhos, andando,
Pisando o mesmo caminho!

Recuses embora a dor,
O tormento, o teu sofrer,
Serás sempre, meu amor,
A razão do meu viver!

 

***************************


DESALENTO


Deixem-me caminhar, sem rumo certo,
E sem o norte que eu, em vão, busquei! …
Deixem-me só, que, só, vivo mais perto
Do Bem que loucamente abandonei!

Não quero ouvir lamentos. Meu deserto
De mágoa e de tormento eu o criei …
Ergui barreiras, em caminho aberto,
E o próprio chão, que percorri, manchei…

Que importa seja a dor o meu arrimo,
Se, só com ela, atingirei o cimo
Do Gólgota que Deus me destinou!

Não me condenem! Deixem-me viver,
Entregue à minha mágoa, ao meu sofrer,
Que eu vivo bem assim, tal como sou! …


*********************************


ÚLTIMA PRECE


Quando eu morrer, só quero alegres cantos,
Louvando o Santo Nome do Senhor,
Por ter chamado, a Si, um pecador …
Não quero choros, lágrimas, nem prantos.

Quando eu morrer, não quero, à minha beira,
As falsas expressões de sentimentos.
Quero silêncio e flores, e momentos,
De oração bem sentida e verdadeira.

Não façam, não, da minha câmara ardente,
Vulgar, banal salão de vãs censuras.
Meditem, cantem, rezem, porque a gente
Mais não é do que frágeis criaturas.

E, amanhã, estarão ali também,
Desfigurados, frios; com efeito,
De mãos em cruz, geladas, sobre o peito,
Mostrando o triste fim que a vida tem!

Rezem, de quando em quando: - Ave Maria !
Quero cânticos, flores e orações,
E o amor de tantos quantos corações,
Eu aqueci com chamas de alegria! …


*************************


MÁGOA


Perdi o meu tesouro, no caminho
Da vida fútil que vivi então …
Tudo esbanjei : Ventura, amor, carinho,
Todo o bem que me enchia o coração!

E agora, há, dentro de mim, um vácuo enorme,
A ânsia de encontrar o que perdi:
A doce paz de quem repousa e dorme,
Feliz viver que nunca mais vivi!

Quem quer trazer, à minha vida, amor?
Quem vem compartilhar da minha dor?
Quem vem dizer-me que me quer ainda?

Aonde foste, ó meu amor, aonde?

Em vão pergunto, pois ninguém responde
Ao grito desta mágoa que não finda! …

 

***************************

 

AQUILO QUE NÂO TE DIGO


Não palavras de amor
Que possam bem traduzir
A grandeza da ternura
Quer se abriga em meu sentir.

Aquilo que não te digo
E que queria dizer,
É isto que anda comigo,
Cá dentro, no meu sofrer !

Cá dentro, no meu sofrer,
Em doce e amargo castigo,
Atormenta o meu viver,
Aquilo que não te digo .

Quando o teu olhar consente
Meu olhar, então consigo
Segredar-te, mudamente,
Aquilo que não te digo! …


*********************


ABISMO


Um dia, ficarei à tua espera
No canto duma rua, nem sei onde …
Trepando nos meus sonhos, como a hera
Que nas ramagens dum amor se esconde!

E tu virás? Sei lá ! Sei lá ! Que o amor,
Nem todos, todos sabem-no entender!
Tem segredos amargos como a dor,
E mágoas bem mais duras de sofrer.

Mas quem és tu, por quem há tanto espero?
E que podes pôr luz na noite escura
Da minha vida? – Vem, que eu desespero !
Traz-me alegria e paz, traz-me ventura !

Não sei quem és, Amor ! Mas sei que existes;
Sei que te amo; sei mesmo que te adoro.
Fita bem meus olhos, olhos tristes,
Que te fazem chorar, sempre que eu choro.

Que abismo enorme nos separa, quando
Caminhamos na vida, par a par!

Como é tão triste, amor, viver amando
“ A quem por força não se deve amar “!...


************************************


DESENRAIZAMENTO


Somos quatro; e ao lembrar
Que apenas três ficarão,
Eu sinto a alma chorar
E a sangrar-se o coração.

Mas, depois de três, saber
Que dois somente serão,
Mais se avoluma o sofrer
Que nos fere o coração.

Finalmente, dois apenas:
Tu e eu, e mais ninguém …
Sós e tristes e mais pobre
Que o pobre que nada tem !

É que a riqueza da vida,
Na vida que agente tem,
Está nos filhos que Deus
Nos dá e tira também!

Por que pensar que são nossos
Os filhos do nosso amor?
… Nascem, crescem, vivem, partem
por vontade do Senhor ! …

 

******************************


QUEM ME CONDENA?


Tu sabes lá, querida, quanto guardo,
Dentro em minha alma, para te dar um dia!
Longe de ti, amor, deliro e ardo
Em febre de saudade que angustia.

O céu, outrora azul, agora é pardo,
E ofusca, em mim, o Sol dessa alegria,
Dessa ventura – que viver já tardo –
Que o teu olhar ao meu olhar trazia …

É tão efémera, tão curta a vida,
Que se não for, com muito amor vivida,
Vivê-la, assim, não valerá a pena …

Se amar é crime, ó vis injuriosos,
O mundo é imenso mar de criminosos …
Quem, pois, me acusa a mim? Quem me condena?


********************************


DESPERTA, AMOR


São teus meus versos, versos que escrevi,
À luz da Lua, em noites estivais,
A reviver as horas que vivi …
Sonhos de amor que não voltaram mais.

Rolaram meses, anos, na voragem
Do tempo que já tudo destroçou …
Somente, emoldurada, a tua imagem,
Dentro em minha alma, estática, ficou!

Por que não vens, mulher, por que não vens
Dizer-me que me queres tanto, enfim,
Como então me querias, se ainda tens
O coração a palpitar por mim?

Por que motivo tentas esconder,
No olhar furtivo, o amor que te atormenta?
Não turves a alegria de viver,
Que, assim, da própria vida se afugenta?

E dá-me as tuas mãos, as mãos que, um dia,
Afagaram meu rosto, ternamente …
Desperta, amor, que a vida é agonia
Dos céleres minutos do presente! …


******************************


AUSÊNCIA


É bem mais triste, agora, o nosso lar …
E a casa até se torna mais vazia …
Sinto-me envelhecer, em cada dia
Que passa, sem te ouvir e sem te olhar.

Ai, como custa a vida, assim, passar.
Tudo é mais lento … O tempo que desfia
As horas, uma a uma, em agonia,
Quase parece nunca mais findar.

E porque as nossas vidas formam uma,
Quando partiste, não ficou nenhuma;
As outras três contigo, tu levaste …

Volta depressa, volta a converter
Em cálida alegria de viver,
A mágoa e a saudade que deixas-te!...


*********************************


OLHOS QUE FALAM 

Olha-me bem,
Que eu quero ler,
Nesses teus olhos,
Toda a odisseia do mundo e da vida …

Olha-me bem,
Que eu quero entender
Que dizem teus olhos,
Olhos que falam
Dum mar de escolhos …
Olhos que se perdem,
Na longa distância do passado …

Olhos tristes que imploram perdão …
Olhos frios que gritam desprezo,
Que expelem ódio …

Ai, os teus olhos,
São olhos que ferem,
Olhos que matam;
Olhos que esbanjam carinho e ternura …
Olhos que espargem paz e alegria,
Alegria e ventura!

Olha os meus olhos,
Tristes, ansiosos …
Olhos saudosos,
Vidrados de amor …
Olhos doentes,
Ausentes da vida …
Olhos sem cor,
Parados, vazios,
Olhos perdidos
Na escuridão! …

Olha, esses outros …
Olhos que saltam,
Olhos que brincam
Como crianças…
Olhos que são
Um mundo de esperanças…
Olhos que falam ao coração! …
Olha-me bem, que eu quero ler,
Nesses teus olhos,
O que outros olhos
Me querem dizer …


*****************************


QUANDO EU PARTIR


Vergado pelo peso do destino,
Hei-de tombar, um dia, já cansado
De palmilhar um mundo mau, cretino,
Que assim me faz viver desalentado.

Não mais voltar a ver o triste olhar
Dos que vivem com fome de justiça,
Dos que passam, mirrados de chorar,
Na dor que o vento da amargura atiça.

Então, que ninguém chore! Que ninguém
Lamente esta descrença no Porvir …
Para quem sofre, a morte é sempre um Bem …
Bendigam pois a hora em que eu partir! …


******************************


CANÇÃO DA LIBERDADE


Volta,
Volta à tua terra,
Que o Sol agora tem mais luz,
Tem mais calor,
E a todos ilumina e aquece …

Volta à tua terra,
Que o ódio eliminou-se,
Pela força do amor
E do coração!
O vento da Liberdade
Varreu as nuvens negras da opressão!

Volta à tua terra,
Terra de igualdade …
Vem cantar connosco
A canção da Liberdade!

Volta à tua terra,
Terra nova,
Sem escravos, nem senhor …
Quebrou-se a força do poder;
Partiram-se as grilhetas do silêncio …
Calou-se a voz do terror!

Volta à tua terra,
Terra de prazer,
Terra da alegria,
Terra nova, remoçada,
Pelo sopro da igualdade.
Volta!
Vem cantar connosco
A canção da liberdade!

Quebraram-se os ferros
Da tortura …
Esmagou-se a força da tirania …
Foi-se da terra a tristeza,
Voltou à terra a alegria!

Tu que, fugindo
Á ira dos tiranos,
Um dia, partiste chorando,
Volta sorrindo,
Volta cantando,
Que, à solta,
Já não há feras rugindo,
Já não há feras uivando! …

Agora, é tudo diferente …
É a tua terra …
A minha terra,
A terra da nossa gente! …


*********************************


P.Delgada - S. Miguel - Açores

1983



publicado por remospartidos às 23:41
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